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Reportagem

Pedrógão Grande, a luta da capital do carrossel

03.02.2010 - 12:10 Por José Bento Amaro

Foram os amores de um italiano abastado por uma menina da aldeia de Valongo, em Pedrógão Grande, que fizeram daquele concelho leiriense a "capital do carrossel". Corria a década de 1930. Italiano e portuguesa casaram e, entre outros negócios, aventuraram-se nestes divertimentos, até então inéditos no país. A mão-de-obra para sustentar a actividade, essa foram-na buscar à terra da noiva. Aos poucos, dezenas de madeireiros e resineiros mudaram de actividade. Abraçaram a vida na estrada, rodando engrenagens de ferro que sustentavam cavalos de pau e cadeirinhas de lata que tanta alegria levaram a miúdos e graúdos nas feiras e romarias de Portugal.
"Esta é a vida mais difícil que existe. Agora dormimos nos camiões e nas carrinhas." "Esta é a vida mais difícil que existe. Agora dormimos nos camiões e nas carrinhas." (Nuno Ferreira Santos)

"Esta é a vida mais difícil que existe. Agora dormimos nos camiões e nas carrinhas. Dantes era debaixo do carrossel, com uma enxerga no chão e duas tábuas de cada lado. Era ali que se dormia e que se faziam os filhos", conta Avelino Onofre, 53 anos passados a percorrer o país de lés a lés. "Esta é a minha vida. Foi aqui [nos carrosséis] que nasci. Esta também já era a vida dos meus pais", acrescenta o empresário que tem como principal objectivo na vida trabalhar para pagar os estudos dos filhos. "Tenho uma filha na faculdade."

Onofre explica que o tal italiano, que há cerca de 80 anos trouxe os carrosséis para Portugal e que se chamava Mário Galter Ossa, tendo casado com Fernanda Henriques, natural de Valongo, Pedrógão Grande, criou as bases de um empresariado (da diversão) que hoje pode estar à beira da extinção, caso vão por diante as novas normas, fiscais e de segurança, que o Governo pretende impor.

Os tempos já não são os das carro-?ças e dos burros, dos carrosséis movidos à manivela. Agora os filhos que acompanham os pais até podem estudar durante as tournées, graças ao programa Escola Móvel. Agora investe-se em equipamentos que podem chegar ao meio milhão de euros e viaja-se em grandes camiões. É nesses veículos que centenas de pessoas vivem há uma semana, no Parque Tejo, em Lisboa. Ali dormem, comem e traçam planos para continuar a protestar. Ontem à tarde estavam sob o olhar atento de vários polícias, não fosse algum quebrar a proibição de se manifestarem novamente, e em marcha lenta, pelas ruas da capital.

Determinados em não arredarem pé sem a garantia de que as suas contribuições não serão aumentadas, os empresários receberam ao fim da tarde mais reforços para a causa da "família", como gostam de chamar aos mais de 250 comerciantes do sector. Acabado de chegar da República Dominicana, onde passou a lua-de-mel, Tiago Pereira, de 23 anos, é mais um dos que teimam em manter acesas as luzes dos carrosséis. A sua mulher também começou a gatinhar nas feiras. Ambos querem seguir as pisadas dos pais. Tiago, que fez o 12.º ano, até já recebeu do sogro um incentivo: uma pista de carrinhos de choque.

“Portugal é um bom padrasto e um mau pai”

Tiago é uma espécie de novo soldado no mister nacional inventado por Galter Ossa. Já não vai ter de pernoitar sob os tabuados dos carrosséis mas, tal como a maioria das pessoas do sector, tem um árduo caminho a percorrer.

Diz José Almeida, empresário de 39 anos - entrou nesta vida dos equipamentos de diversão depois de, apenas com 12 anos, se ter aventurado, sozinho, até Valência, para ir comprar luzes para uns carrosséis – que o negócio é apenas sazonal e o que se ganha em seis meses tem de durar para todo o ano.

“Pagamos os impostos todos, as licenças e a ocupação dos terrenos, para além da água e da luz. Mas em alguns sítios, apesar de as câmaras [municipais] estarem avisadas, nem sequer há água ou luz. Temos de usar geradores e tomar banho como calha. Muitas vezes, mesmo depois de trabalharmos 17 ou 18 horas por dia, o saldo da 'tourné' é negativo”, diz António Fernandes Pereira, 50 anos e um dos poucos empresários do sector que não nasceu em Pedrógão Grande.

A sua descrição das dificuldades merece a aprovação dos que se juntam à conversa. Avelino Onofre, que se afirma disposto a derramar sangue pela causa dos empresários dos carrosséis, mostra ser homem de frases fortes. “É preciso tanto sacrifício para comer um bocadinho de pão?”. E depois da interrogação também, em jeito de conclusão sofrida, dá a resposta. “Portugal é um bom padrasto e um mau pai...”.

As histórias das dificuldades da profissão jorram. Então e os velhotes? Esses, diz Onofre, “reformam-se debaixo da terra”. Os carrosséis são um negócio que passa de pais para filhos. Muitos destes não possuem meios financeiros para mandar os primeiros para um lar.

Vai-se o carrossel vem a pipoca

“Há por aí velhotes que já não podem andar a montar carrosséis e pistas e também não têm onde ficar ou quem tome conta deles. A solução é andarem com os filhos e os netos na vida. Em vez de andarem a alancar com o material, abrem pequenos negócios, mais leves, de venda de pipocas e farturas. E olhe que as pipocas e as farturas são importantes, tal como os carrosséis, para que as romarias não morram”, explica outro feirante.

As conversas escorrem a meia dúzia de metros do Trancão, rio pequenino que o Tejo traga de imediato. Também os comerciantes se sentem diminuídos quando têm de enfrentar o poder político e, sobretudo, a imprensa e as recriminações da população lisboeta, que durante alguns dias passou horas nas estradas, obrigada a circular ao ritmo dos caracóis devido aos protestos. “Não queremos que fiquem com má ideia de nós. Não estamos a pedir nada a ninguém. Apenas queremos trabalhar. E já agora aproveitamos para pedir desculpa às pessoas de Lisboa”, dizem.

Outros fazem questão de escalpelizar cada uma das suas exigências e das obrigações que o Estado lhes está a impor. “Coberturas anti-fogo? Está bem, mas só depois destas se estragarem. Querem aumentar os passeios dos carrosséis de 90 centímetros para um metro. Dez centímetros parecem pouco, mas se se aumentarem já os passeios, também será necessário mudar de carros, porque os que temos não podem depois carregar o material”, afirma Avelino Onofre. Ao lado, um colega de profissão faz uma sugestão: “Chamem o Godinho, aquele do ferro velho, que nós vendemos-lhe isto tudo”, diz ao mesmo tempo que aponta para as dezenas de camiões e carrosséis estacionados no Parque Tejo.

Outros lembram que o material cuja segurança é agora questionada pelas autoridades nacionais é o mesmo que circula em quase toda a Europa. Em Portugal já não há qualquer empresa que faça reparações de carrosséis ou pistas de carrinhos de choque. As duas últimas, sediadas em Torres Novas e São João da Madeira, já fecharam há cerca de 40 anos.

Espanha, França, Polónia e Itália continuam a ser os principais abastecedores do mercado. Do país de Mário Galter Ossa (tem um neto na vida dos carrosséis), homem de muitas posses, amigo pessoal do então Presidente da República, Américo Tomás (conta-se que era ele quem, em caçadas em coutadas privadas, abatia as peças e depois as entregava ao governante, bajulando-o com frases como: “Que belo tiro, sr presidente” ou “Grande tiro, sr almirante” ou ainda “O sr almirante não falha uma perdiz”) surgem mais novas sobre o negócio. Lá, como cá, um certificado para atestar a qualidade do material custa 360 euros. Só que “lá” o certificado é válido para três anos, enquanto que por cá dura apenas o tempo de uma tourné – os seis meses de estrada e feiras que a meteorologia permite.

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Sentimentalismo bacouco

que se deve de exigir a um empresario?: Ter um negocio rentavel,ou ter um negocio a qualquer custo, ...

tuga

04.02.2010 17:08

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