O Papa Bento XVI chega hoje aos Estados Unidos da América, para uma visita a Washington e Nova Iorque que dura até domingo. Espiritualidade e política cruzam-se numa viagem que encontrará uma comunidade católica que constitui um quarto da população do país (24 por cento, cerca de 70 milhões de católicos), ainda abalada pelos escândalos de pedofilia de membros do clero, revelados a partir de 2000.
Durante estes dias nos EUA, o Papa Ratzinger completa 81 anos de idade (amanhã, quarta) e três anos sobre a sua eleição para o cargo (sábado, dia 19). Será, na intenção de Bento XVI, uma viagem com uma dimensão espiritual profunda, para tentar ganhar de novo a confiança dos católicos e da sociedade civil.
Na sequência dos escândalos, a Igreja Católica teve que pagar, só em 2007, 400 milhões de euros em indemnizações. Mas a consequência mais forte foi a imagem fortemente debilitada com que a hierarquia católica ficou.
A homilia da missa do dia 19 será dedicada precisamente à questão da pedofilia. A escutar Bento XVI, estará uma parte significativa dos 42.271 padres que existem actualmente nos Estados Unidos (ao todo, e desde 1940, 3000 padres estiveram envolvidos em abusos sexuais).
Uma época "crítica"
No sítio na Internet da National Catholic Reporter (www.ncronline.org), uma conceituada revista religiosa norte-americana, John Farmer escrevia ontem que a visita do Papa Bento XVI ocorre numa época "crítica" para o catolicismo norte-americano, atingido pelos casos de abuso sexual do clero e perturbada pela morte do Papa João Paulo II. Mas Bento XVI, como homem de cultura, considera Farmer, está melhor posicionado que o seu antecessor para se dirigir a este catolicismo em crise cultural, em que cada crente se sente atingido, no seu interior, por um conflito entre a fé e a cultura.
Esta viagem de Bento XVI terá também um forte cariz político. Perante a Assembleia Geral das Nações Unidas, sexta-feira, o Papa falará de paz e direitos humanos. Essas três horas serão "o acontecimento" mais importante da viagem, definiu o porta-voz do Vaticano, Federico Lombardi. No ano em que a ONU assinala o 60.º aniversário da Declaração Universal dos Direitos Humanos, o discurso do Papa estará "centrado nesse tema e, sobretudo, na indivisibilidade dos direitos humanos fundamentais", conforme adiantou já o cardeal Tarcisio Bertone, secretário de Estado do Vaticano.
O Papa, disse ainda Bertone, citado pela AFP, irá dizer que os direitos humanos devem ser fundados "sobre a justiça e a ética" e que é necessário "proteger os direitos dos mais fracos". É provável que Bento XVI se manifeste contra algumas práticas, repetindo afirmações tradicionais, neste campo, para a hierarquia católica: aborto, eutanásia, manipulação genética. Mas, perante os representantes dos estados, deverá também condenar a tortura, a escravatura moderna ou a pena de morte, que continua a ser praticada em alguns dos estados norte-americanos.
Oração no Ground Zero
A imagem simbólica que ficará desta visita está guardada para domingo, antes da missa no Yankee Stadium, de Nova Iorque: será ao início da tarde, hora de Lisboa, sensivelmente à mesma hora que tiveram lugar os atentados de 11 de Setembro. No lugar dos ataques, o Papa irá fazer uma oração por aqueles que morreram vítimas dos atentados e pela conversão ao amor "daqueles cujos corações e pensamentos estão consumidos pelo ódio".
A ida do Papa ao lugar dos atentados surge pouco tempo depois de Osama bin Laden, o líder da Al-Qaeda, ter dito que Bento XVI estava a tomar parte numa "nova cruzada" contra os muçulmanos.
As autoridades norte-americanas de segurança levaram a sério esta ameaça e montaram uma operação policial maior que a que rodeou o Papa João Paulo II nas suas visitas.
Amanhã, o Papa encontra-se de manhã com o Presidente George W. Bush, na Casa Branca, e com os 350 bispos católicos norte-americanos. Responsáveis de outras religiões e das diferentes confissões cristãs terão também encontros com Bento XVI, que se dirigirá ainda, na quinta-feira, a responsáveis de escolas e universidades católicas.


