O pediatra Mário Cordeiro apelou hoje ao Ministério da Saúde que autorize os pais a assistir ao nascimento dos filhos, mesmo em caso de cesariana, defendendo que os homens têm todo o direito a acompanhar o parto.
"A Direcção-Geral da Saúde e o Ministério da Saúde deviam ser implacáveis e estabelecer uma regra para todos, obviamente com base científica", afirmou Mário Cordeiro em entrevista à agência Lusa.
Para o especialista, "não se justifica" que os hospitais tenham regras diferentes para partos distintos, dando o exemplo de unidades privadas que têm normas opostas sobre a presença dos pais quando se trate de parto natural ou cesariana com epidural.
Na generalidade dos hospitais portugueses, quer públicos quer privados, a presença do pai quando o parto é natural é já uma prática comum, mas quando é realizada uma cesariana (mesmo só com recurso a epidural, estando a mãe acordada) muitas instituições opõem-se à presença paterna.
"Se é um nascimento, devem estar lá as pessoas envolvidas. Os donos do momento são ambos os pais; os médicos e enfermeiros são apenas uma espécies de auxiliares", argumentou, comparando a presença dos profissionais de saúde com os técnicos de som de um qualquer espectáculo de um grande grupo de música.
"No dia seguinte a um concerto dos Rolling Stones, as manchetes e os jornais falam é da banda e eventualmente dedicam um pequeno espaço aos técnicos de som e luzes. Mas os verdadeiros protagonistas continuam a ser os músicos, apesar de não haver espectáculo sem um técnico de som", comparou.
O pediatra, autor de diversos livros sobre crianças, atribui "à arrogância profissional" de alguns profissionais de saúde a recusa da presença do pai, em algumas unidades, quando o parto é feito por cesariana.
"Garanto-lhe que se for o obstetra ou o enfermeiro a ter um filho, ele estará lá no momento do nascimento", adiantou.
Mário Cordeiro recorreu ainda a um dado científico para sustentar a sua posição: qualquer criança começa a fantasiar sobre os seus filhos por volta dos 18 meses quando, por exemplo, embala um boneco.
Esta fantasia pode nada ter a ver com a realidade, já que mesmo um adulto que não queira ter filhos passou por esta fase de imaginar o futuro na infância, no momento em que "deixa de se sentir Deus" e percebe que é humano, tendo necessidade de justificar a sua existência.
Neste enquadramento, o pediatra criticou que em "cerca de 80 por cento dos casos" os profissionais de saúde levem imediatamente o bebé para longe dos pais depois do nascimento.
"Na maioria das vezes, os pretextos (limpar o bebé ou fazer o exame da anca) não são válidos. No fundo, o profissional está também a fantasiar que teve mais um bebé, mas acaba por causar muito sofrimento aos pais", defendeu.
O profissional deve entender que este não é o nascimento de um filho seu, mas um momento que pertence aos pais, considerou.


