O pastor Leonel Ferreira, acusado de traficar urânio com dinheiro doado à instituição “Santamarianos”, quebrou hoje o silêncio no tribunal de Gaia para acusar a testemunha que horas antes o defendera de enveredar por “mitomanias” para lhe sacar dinheiro.
Em causa está o camaronês Raimond Lob, que a justiça francesa condenou a três anos de prisão por tráfico de urânio, num processo em que o próprio pastor Leonel Ferreira, da Igreja Kharisma, chegou a ser arguido.
“Peremptoriamente, não fiz, nunca faria, nem nunca farei tráfico de urânio”, garantiu o pastor, num testemunho que se prolongou por toda a tarde, e no qual assegurou que a sua aproximação ao camaronês se destinava apenas a conseguir “operações financeiras” que lhe permitissem rendibilizar capital rapidamente.
Esse capital, assegurou, teria sido obtido na compra e revenda de uma fábrica e não, ao contrário do que consta da acusação, com a utilização de fundos instituição “Santamarianos”.
No seu depoimento, o pastor da Igreja Kharisma disse que Raimond Lob foi-lhe apresentado como uma pessoa que teria bons contactos no mundo dos negócios e que também teria capitais significativos para investir.
A pretexto de tentar conseguir negócios mutuamente vantajosos, Raimond Lob terá entrado numa espiral chantagista, facilitada pela auto-declarada “ignorância” do pastor sobre estas matérias.
Horas antes, o camaronês depôs em favor do pastor, admitindo que ambos mantiveram negócios, mas nunca de urânio.
“No urânio eu estava só”, disse, sem responder directamente a várias perguntas da juíza-presidente, intermediadas por um intérprete francês.
A magistrada chegou mesmo a avisá-lo que poderia incorrer em crime de desobediência.
Também a perguntas da juíza, Raimond Lob admitiu que o arguido pagou esta sua deslocação ao tribunal de Gaia – em que se fez acompanhar por um advogado –, mas garantiu que só quis testemunhar “por dever de consciência”.
No processo, em julgamento desde Novembro e que deverá entrar em alegações finais na tarde do dia 24, Leonel Ferreira é acusado de um crime de detenção de substâncias explosiva ou análogas e armas.
A acusação relata que no final do ano de 2001 as autoridades judiciais francesas solicitam à congénere nacional a realização de uma Carta Rogatória Internacional, visando Leonel Ferreira e, das investigações subsequentes, "resultou inequivocamente o envolvimento do arguido" na aquisição daquela substância.
Leonel Ferreira assumiria mesmo, ainda de acordo com o texto acusatório, "um papel fulcral no processo de tráfico de engenho ou substância capaz de produzir explosão nuclear, em investigação naquele país".
Entre as entidades dadas como lesadas conta-se a instituição privada de solidariedade social Associação Samaritanos - Missão de Caridade, que o arguido fundou em 1998, juntamente com o seu pai, em Vila Nova de Gaia.


