Parlamento vai ouvir directores de informação e jornalistas

07.02.2010 - 08:47 Por Margarida Gomes, Sofia Rodrigues, Maria Antónia Zacarias
Em reacção à divulgação de escutas, o primeiro-ministro alega que as conversas são "privadas" e que as notícias são uma "infâmia".
Os partidos da oposição estão dispostos a viabilizar, já depois de amanhã, o requerimento do PSD para ouvir directores de órgãos de comunicação social, jornalistas e outras entidades sobre o "exercício da liberdade de expressão". Foi uma iniciativa da bancada social-democrata apresentada um dia antes das revelações do semanário Sol, mas que promete não deixar cair no esquecimento a alegada tentativa de interferência do Governo na comunicação social noticiada nos últimos dias. Notícias que deixaram ontem Sócrates visivelmente irritado.
Pouco mais de duas horas depois de Cavaco Silva sublinhar o respeito pela liberdade de expressão em Portugal, o primeiro-ministro não poupou adjectivos às revelações na imprensa sobre o alegado plano do Governo para controlar a comunicação social. Irritado, Sócrates considerou "absolutamente lamentável" as notícias publicadas sobre as escutas telefónicas, classificando-as como "jornalismo de buraco de fechadura", baseado "em conversas privadas que não têm relevância criminal, mas simplesmente o objectivo de atacar pessoas".
À margem da cerimónia de adjudicação de contratos de redes de comunicações de nova geração, em Vila Viçosa, foi com alguma tensão que o primeiro-ministro recebeu as perguntas dos jornalistas que pediam uma reacção às notícias do Sol e do Correio da Manhã. O governante disse não querer tecer comentários, visto não querer contribuir "para essa infâmia", nem para "a degradação da vida pública". "Era o que faltava, eu agora comentar conversas privadas de outros. Não o faço", garantiu, frisando que quem o tem feito revela uma atitude que lhe parece "indecorosa e desprezível".
Depois do silêncio de sexta-feira, o BE e o PCP vieram ontem exigir mais esclarecimentos sobre o alegado plano que envolve o primeiro-ministro para controlar a comunicação social. E o deputado do CDS Ribeiro e Castro defende mesmo que o caso merecia uma comissão parlamentar de inquérito.
O ex-ministro do PS João Cravinho voltou a colocar o dedo na ferida ao reafirmar ontem que "o tráfico de influências é um dos maiores problemas do país". "Onde é que está o centro da corrupção grave em Portugal? Eu digo que está no sector político. Pergunte aos líderes políticos e vai ver se eles não assobiam para o ar... Bom, diz -se muita coisa, mas depois não se prova, até porque ninguém quer que se prove", disse, sem referir directamente o caso.
Violentas foram também as declarações do ex-líder do PSD Marques Mendes. Anteontem à noite, considerou que o caso das escutas que envolvem a TVI "é uma vergonha que ultrapassa todos os limites e todas as marcas". "O primeiro-ministro fica pelas ruas da amargura", afirmou, para depois perguntar:"Como é que se respeita um Governo e um primeiro-ministro que agiram desta forma num plano orquestrado ao mais alto nível, com métodos absolutamente inaceitáveis para controlar a informação?".

