Papa sublinha perante muçulmanos a importância do respeito pela liberdade religiosa

06.11.2008 - 13:24 Por AFP, PÚBLICO
“Liberdade individual de consciência” e “liberdade religiosa”. São estes os direitos que o Papa quer ver garantidos por todos os líderes políticos e religiosos e que hoje sublinhou durante o primeiro fórum de católicos e islâmicos que decorre no Vaticano.
Perante dignitários muçulmanos e católicos do mundo inteiro, reunidos da sala Clementina, no palácio apostólico, Bento XVI disse ter a “esperança que os direitos humanos fundamentais sejam garantidos a todos em todo mundo”. O Sumo Pontífice defendeu que “os dirigentes políticos e religiosos tem o dever de assegurar o livre exercício desses direitos no pleno respeito da liberdade individual de consciência e da liberdade religiosa”.
Em representação da delegação muçulmana, o universitário norte-americano Seyyed Hossein Nasr sublinhou, por sua vez, que muçulmanos e cristãos “crêem uns e outros na liberdade religiosa”. Mas Nasr salienta que os muçulmanos “não aceitarão um proselitismo agressivo que destrua a sua fé em nome da liberdade, tal como os cristãos não o aceitariam se estivessem na situação” dos seguidores do islamismo.
Na sua intervenção, o mufti da Bósnia, Mustafa Ceric, líder da delegação muçulmana, lembrou a guerra que devastou a ex-Jugoslávia no final do século XX, frisando que os “irmãos bósnios muçulmanos sofreram um genocídio”.
“[O fórum católico-muçulmano] é um sinal claro da nossa estima mútua e do desejo de nos escutarmos com respeito”, “um passo suplementar no caminho de uma melhor compreensão entre muçulmanos e cristãos”, acrescentou ainda Bento XVI.
O fórum, reunido sob o tema de “Amor a Deus” e “Amor do Próximo”, é o resultado de um apelo ao diálogo lançado a 13 de Outubro do ano passado aos cristãos por 138 religiosos e intelectuais muçulmanos.
O apelo seguiu-se ainda a um discurso polémico proferido a 12 de Setembro de 2006, na Universidade de Regensburg, na Alemanha, quando abordou a questão da fé, da razão e da violência.
O Islão foi invocado pelo Sumo Pontífice em alguns parágrafos, através da citação do imperador bizantino Manuel II Paleólogo (1350-1425), numa alusão deste a um sábio persa muçulmano, algures entre 1394 e 1402. O imperador terá pedido ao sábio persa: "Mostra-me o que Maomé trouxe de novo. Só encontrarás coisas más e desumanas, como o direito a defender pela espada a fé que ele persegue". Depois, o imperador explica por que é absurdo difundir a fé pela violência: "Uma tal violência é contrária à natureza de Deus e à natureza da alma. Deus não ama o sangue e agir de maneira irracional é contrário à natureza de Deus. A fé é o fruto da alma e não do corpo. Aquele que quiser conduzir outros na fé deve ser capaz de falar bem e pensar de forma justa e não pela violência e ameaça".
Depois desta citação, vários líderes muçulmanos vieram a público exigir esclarecimentos. Três dias depois das declarações polémicas, o Papa afirmou que não tinha tido a intenção de ofender a sensibilidade dos crentes muçulmanos nem de qualquer outra religião e expressou o seu "profundo respeito" pelas grandes religiões, em particular pelo islamismo, reafirmando que as suas palavras sobre Maomé foram mal interpretadas.

