Os jovens são por condição solidários? Em Portugal pelos vistos já não é assim

05.02.2012 - 15:58 Por Clara Viana
Para mais de metade dos portugueses, a possibilidade de subir na vida é ainda um privilégio só ao alcance de certos grupos. É mais um sinal de "desesperança" num país onde "a desigualdade é profunda e estrutural".
É mais uma das ideias antes dadas como certas que agora não sobrevive à crise. Os jovens são por condição solidários? Em Portugal pelos vistos já não é assim. Um estudo do Instituto de Ciências Sociais (ICS) sobre as atitudes dos portugueses perante a desigualdade e os chamados direitos sociais, desenvolvido com base num inquérito realizado em 2011, a que o PÚBLICO teve acesso, dá conta que os jovens são o grupo que menos empatia mostra para com as dificuldades sentidas pelos mais pobres neste cenário de crise.
No inquérito, realizado no âmbito do barómetro sobre a qualidade da democracia, pede-se aos entrevistados que identifiquem os grupos sociais que estarão a atravessar maiores dificuldades nesta crise. Para o efeito são propostas três afirmações sobre as pessoas mais ricas, as da classe média e as mais pobres e é pedido que as classifiquem numa escala de 1 (muito de acordo) a 5 (muito em desacordo).
Confrontados com a afirmação de que "as pessoas mais pobres estão a viver tempos muito difíceis, porque não têm acesso às recompensas dos ricos e são pouco apoiadas socialmente", 82% dos entrevistados mostraram a sua concordância. Mas, segundo os autores do estudo, os sociólogos Filipe Carreira da Silva e Mónica Vieira, os resultados mostram também que, numa amostra de 1027 inquiridos, seleccionada para ser representativa da população nacional, são os mais jovens que manifestam o maior desacordo em relação àquela afirmação.
Entre empregos precários e o desemprego crescente, "os jovens têm pela frente uma vida de enormes incertezas. Estão muito preocupados com eles próprios e daí a menor solidariedade com os pobres", justifica Filipe Carreira da Silva. Por outro lado, terão receio de que os apoios hoje garantidos aos mais pobres contribuam para o fim, a prazo, da existência das prestações sociais, os que os penalizará ainda mais.
Norte é diferente
Depois dos jovens, os que mostram menos solidariedade com as dificuldades sentidas pelos mais pobres são os inquiridos de menor estatuto social. Os autores do estudo lembram uma tendência que tem sido constatada em muitos inquéritos nacionais e internacionais: a maioria das pessoas tende a identificar-se como sendo da classe média, mesmo que tal não corresponda à realidade. Este autoposicionamento subjectivo justificará em parte, acrescentam, o facto de os inquiridos com menor estatuto social terem dado pouco peso às dificuldades dos mais pobres, "que serão muito possivelmente análogas às suas". "Fazê-lo seria em muitos casos equivalente a pôr a descoberto uma pobreza escondia", frisam.
Os resultados globais do inquérito mostram que a maioria dos portugueses discorda que os ricos estejam também a atravessar tempos difíceis. Já pelo contrário 70% considera que a classe média está a sentir particulares dificuldades "porque não tem acesso às recompensas dos ricos nem às prestações sociais", sendo, a seguir aos pobres, o grupo mais afectado pela crise. Esta percepção nacional não é seguida pelos inquiridos residentes no Norte litoral do país. Uma análise dos resultados por região revela que esta "é a única do país em que as pessoas não pensam ser os pobres quem está a passar por maiores dificuldades neste contexto de crise", elegendo em seu lugar a classe média. Os autores lembram, a propósito, que o Norte foi a região do país que mais empobreceu nos últimos anos.

