• Kiev, a porta de entrada da Ucrânia
  • Restaurantes de topo com menus a 20 euros
  • Portugueses estão solidários com os gregos

Opinião: Sou assistente no processo Freeport e sê-lo-ei noutros

02.08.2010 - 19:15 Por José António Cerejo

  • Votar 
  •  | 
  •  27 votos 
Tornei-me assistente para garantir que a informação chegaria aos leitores do PÚBLICO. E voltarei a fazê-lo quando o julgar necessário Tornei-me assistente para garantir que a informação chegaria aos leitores do PÚBLICO. E voltarei a fazê-lo quando o julgar necessário (Pedro Cunha)
Pelo que se ouve e lê, há por aí algumas pessoas incomodadas pelo facto de o autor destas linhas, jornalista do PÚBLICO, se ter constituído assistente no processo Freeport e, ainda por cima, permitir-se escrever sobre esse tão peculiar tema. Pois bem, sobretudo para esclarecimento dos leitores deste jornal que possam ter dúvidas sobre o assunto, aqui deixo as minhas razões.

Pedi à Direcção do PÚBLICO, no ano passado, que me autorizasse a requerer a minha constituição como assistente naquele processo, com um objectivo claro, único e exclusivamente profissional: garantir a obtenção, de forma legal e transparente, de informação consistente sobre um assunto de indiscutível interesse público.

Não o fiz com a finalidade, que seria perfeitamente legítima a qualquer cidadão, mas que entendo ser incompatível com as minhas obrigações deontológicas, de intervir no processo graças ao estatuto de assistente. Não o fiz para me tornar parte interessada na investigação, para contribuir com informações, requerimentos de diligências ou com uma acusação particular. Não o fiz para recolher e divulgar informação que estivesse em segredo de justiça, a que aliás não tive nem podia ter acesso pelo facto de ser assistente no processo.

Fi-lo porque ando há muitos anos nisto e conheço como as palmas das minhas mãos as obstruções, os expedientes legais, mas também ilegais, a que muitas vezes os agentes do sistema judicial (e não só) recorrem, conscientemente ou apenas por rotina burocrática, para impedir o acesso dos jornalistas, nalguns casos apenas de alguns jornalistas, à informação que temos direito e obrigação de obter e divulgar. Fi-lo porque já muitas vezes vi ser-me recusada informação, por exemplo um despacho judicial, que não está em segredo de justiça, que me devia ser entregue sem qualquer hesitação e que no dia seguinte vejo escarrapachado no jornal ou na televisão do lado. Fi-lo para poder informar prontamente os leitores do PÚBLICO e para dar o meu contributo a uma das mais nobres missões do jornalismo: a fiscalização dos poderes públicos.Fi-lo também porque nunca pactuei com os esquemas promíscuos e indiscutivelmente condicionantes da liberdade de informação que vigoram em muitos meios, onde os jornalistas se transformam numa espécie de moços de recados dos detentores de informação de natureza pública, nomeadamente políticos, magistrados, polícias e titulares de cargos públicos.

Não faz qualquer sentido a existência de uma espécie de mercado em que a informação que devia estar disponível ao mesmo tempo para todos os profissionais que a tratam e divulgam seja passada, por baixo da mesa, a interlocutores privilegiados, a troco do tratamento conveniente ou de harmomia com estratégias e agendas ocultas - ou nem isso.

Mas enquanto for assim só há uma maneira de fugir a esses esquemas e poder continuar a trabalhar, a informar: é malhar contra a opacidade dos poderes, chatear, chatear muito; fazer perguntas escritas e exigir respostas escritas, às dezenas por mês; requerer consultas de documentos e processos; apresentar queixas à Comissão de Acesso aos Documentos Administrativos, aos tribunais, onde for preciso, sempre que a informação não venha.

Fora isso, há os casos excepcionais, aqueles que pela sua delicadeza e relevância pública exigem atitudes igualmente excepcionais. É o caso do processo Freeport.

Tornei-me assistente para garantir que a informação chegaria aos leitores do PÚBLICO. E voltarei a fazê-lo quando o julgar necessário.

Estatísticas

  • 27 leitores
  • 46 comentários

URL desta Notícia

http://publico.pt/1449778

Comentário + votado

Mais jornalistas como este matavam o polvo

hoje senti que ainda há jornalistas capazes de enfrentarem a fera, polvo ou lá como lhe ...

JoséAntónio

03.08.2010 16:57

X

Mais em Sociedade (10 de 12 artigos)

Cinco fogos florestais em Portugal continental, um já dominado