Faz exactamente duas semanas que o povo da Birmânia foi fustigado por um violento ciclone que vitimou entre 30 mil e 100 mil de seres humanos, afectando directamente outros 2 milhões que, desde então, sentem o seu sofrimento desprezado, vendo-o por isso agravado.
Até hoje já morreram milhares de pessoas que poderiam ter sobrevivido. Não foi o caso.
A AMI, como tantas outras instituições da sociedade civil mundial, nada conseguiu fazer, esbarrando numa polida mas intransponível muralha de insensibilidade, indiferença e cinismo, erguida por uma ditadura militar facínora que, nem perante o atroz desespero de uma parte significativa do seu povo, entendeu não aceitar a ajuda que a comunidade humanitária mundial lhe oferecia, pondo apenas uma condição: que, por razões óbvias, fosse ela a entregá-la directamente aos sobreviventes.
Vivo desde então a maior frustração, revolta e angústia. Em 30 anos de intervenção humanitária nos quatro cantos do mundo, nunca tinha sido confrontado, como agora, com um governo tão ignominioso para o seu povo. E no entanto, ao longo destes anos, conheci ditaduras sanguinárias de toda a ordem, e até tratei com alguns ditadores ferozes...
Porém, tanto com os Médecins Sans Frontières como com a AMI, nunca me tinha sido completamente vedado o acesso, como médico humanitário, a populações martirizadas e indefesas, gritando por socorro, num desesperado e intolerável silêncio ensurdecedor para a minha consciência e para a nossa condição humana colectiva.
Com os intensos contactos ao mais alto nível a nível internacional e local, sei de fonte segura que é preciso muito mais ajuda e que grande parte da que vai chegando, sobretudo de países asiáticos que toleram ou apoiam a ditadura birmanesa, não tem como destino os sobreviventes e, quando o tem, é utilizada como mera arma demagógica política.
Quanto à ajuda possível das agências das Nações Unidas e outras, raras, instituições, chegou só depois de muito mendigar... tendo sido quase sempre instrumentalizada!
Infelizmente nem se pôde sequer invocar o Direito de Ingerência Humanitária porque este conceito já foi esvaziado desde a sua indevida apropriação e utilização para fins político-militares, como no caso do Iraque...
No entanto, nunca irei desistir.
Fernando Nobre
Presidente da AMI


