O presidente da Sociedade Portuguesa de Oftalmologia alerta para o excesso de cirurgias às cataratas que estão a ser feitas, salientando que os números são “astronómicos” comparativamente a outros países com uma dimensão semelhante a Portugal.
Questionado sobre a eficácia do Programa de Intervenção em Oftalmologia (PIO), criado em 2008 para diminuir o tempo de espera das consultas oftalmológicas e das cirurgias às cataratas, António Travassos sublinha que “é preciso muito cuidado com as indicações” para este tipo de intervenção.
“Nem todas as actividades profissionais exigem a mesma acuidade visual. Há cirurgias que se fazem e que, se calhar, são desnecessárias”, frisa, acrescentando que podem ser tomadas outras opções. “A medicina não pode ser uma medicina da regra. O Estado não pode desperdiçar dinheiro e aí a responsabilidade é dos médicos. Devem tratar sempre o doente da melhor forma e não precipitar as cirurgias”, sustenta o oftalmologista, na véspera do Dia Mundial da Visão, que se assinala esta quinta-feira.
António Travassos justifica o seu receio com os números que foram divulgados no primeiro balanço do PIO. “São astronómicos e ultrapassam largamente os números de outros países semelhantes a Portugal. Eram mais de 100 mil doentes operados”, recorda.
Ministério diz que não há excessos
Fonte do Ministério da Saúde reconhece que o número de cirurgias foi superior ao habitual em 2008 e 2009 (cerca de 81 mil operações em 2008 e perto de 47 mil nos primeiros seis meses deste ano). Mas, por outro lado, explica a mesma fonte, “este número corresponde ao aumento da capacidade de resposta conferido pelo PIO, que veio colmatar algumas carências, como, por exemplo, o facto de haver, em algumas regiões, portugueses que aguardavam há algum tempo pela cirurgia”.
“O Ministério da Saúde não tem qualquer indicação de que esteja a ocorrer referenciação excessiva para a cirurgia de catarata, até porque a decisão da indicação cirúrgica é sempre colocada por um médico oftalmologista”, acrescenta. Sublinhando que “as decisões médicas devem pertencer aos médicos”, António Travassos não deixa, apesar de tudo, de reconhecer os méritos do Serviço Nacional de Saúde (SNS).
“Estamos a assistir a uma preocupação significativa no sentido de que os portugueses possam contar com o SNS. O SNS foi um dos melhores bens da nossa democracia. A crítica deve ser para melhorar e não para destruir”, sublinha.


