Obesidade infantil: programa Cresce e Estica aposta na prevenção

27.03.2005 - 10:18 Por Adelino Gomes, Gabriela Chagas (Lusa)
Um programa pedagógico de exercício físico e nutrição para crianças entre os dois e os oito anos está a dar os primeiros passos em Portugal, num momento em que a sociedade desperta para o perigo da obesidade infantil.
Portugal está entre os países europeus com maior número de crianças com excesso de peso, assim como Malta, Espanha e Itália. Nestes quatro países, as taxas de sobrepeso e de obesidade excedem os 30 por cento nas crianças entre os sete e os 11 anos.
Com o sugestivo nome Cresce e Estica, o projecto, importado dos Estados Unidos e já implantado em 25 países, visa dar às crianças portuguesas noções básicas sobre exercício físico e nutrição, criando assim bons hábitos e escolhas de vida saudáveis.
Eva Oliveira, Ana Gonçalves e Pedro Fonseca são os três jovens responsáveis pela introdução deste programa em Portugal depois de terem visto o sucesso e os resultados em escolas na Irlanda, onde o Cresce e Estica está já em grande expansão.
Trata-se de um programa de prevenção concebido em 1992 por um casal norte-americano cujo filho era obeso.
Preocupado com a falta de atenção para a obesidade infantil, este casal do Texas desenvolveu um esquema de aulas semanais assegurando assim uma vertente pedagógica não assumida pelas escolas.
Um ano depois, o Cresce e Estica, ou melhor o "Strech-n-Grow" passou a ser aplicado em 25 estados norte americanos e em 1999 chegou à Europa, através da Irlanda.
Em Julho de 2004, o projecto entrou em Portugal e está a ser desenvolvido em dois colégios privados que semanalmente recebem os monitores do Cresce e Estica para aulas de 45 minutos. Cada aluno paga 18 euros por mês.
Durante as aulas, os monitores procuram transmitir às crianças entre os 2 e os 8 anos noções básicas sobre exercício físico, nutrição, higiene e segurança para criar uma "cultura de bons hábitos" e também "aumentar a auto-confiança e a auto-estima".
"Não são aulas de educação física. São dinâmicas com exercício físico, música e jogos lúdicos para, de uma forma divertida, mostrar às crianças um caminho saudável. É na prevenção que se deve apostar", explicou Eva Oliveira à Lusa.
Melhorar a resistência, a flexibilidade e a coordenação motora, aumentar a auto-confiança e a auto-estima são alguns dos objectivos deste programa, que tem como máxima "Maus hábitos criam-se naturalmente! Bons hábitos têm de ser ensinados, encorajados e praticados regularmente".
Eva Oliveira acredita que este programa vai ser um sucesso em Portugal e segundo educadoras daquelas duas escolas, "conquistou de imediato as crianças".
A diversão, a cor, a música e a mímica parecem ser a chave do sucesso do Cresce e Estica que, dizem, "faz bem e dá genica".
Trinta por cento de crianças portuguesas com excesso de peso
Pais obesos, hábitos alimentares errados, pouco exercício físico e muitas horas em frente à televisão são traços comuns aos cerca de 30 por cento de crianças portuguesas com excesso de peso, concluíram especialistas junto da população escolar.
O retrato parte das conclusões de um estudo pedido pela Câmara Municipal de Lisboa - que vai agora dar continuidade ao trabalho - e em que foram inquiridas 3500 crianças da capital com idades entre os 10 e os 19 anos, e um outro, sobre 1125 crianças de Sintra, entre os sete e os nove anos.
Portugal está entre os países da União Europeia (UE) com taxas mais elevadas de crianças com excesso de peso, juntamente com Malta, Espanha e Itália, que se situam nos 30 por cento das crianças até aos 14 anos.
Na origem do problema, que começa cada vez mais cedo, dificultando tentativas posteriores de mudança de hábitos, estão factores mais ou menos comuns, apontou à Lusa Pedro Marques-Vidal, especialista em estudos sobre nutrição e saúde pública da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa.
Um dos grandes problemas detectados nos alunos de Lisboa é a "falta de exercício físico", já que muitos apenas o fazem na escola, e "muitas das actividades físicas escolares não são como deveriam ser".

