Durante anos investiram na formação. E esperaram pelos resultados. Em vão: Inês, Ana (nome fictício) Vasco e João continuam à espera da sua oportunidade.
Inês passou das artes para um call center
Quando era pequena já só queria dançar, representar, pintar... Os pais pensavam que o gosto de Inês Carvalho pelas artes seria momentâneo. Uma coisa da idade. Mas esta "brincadeira de crianças" sempre foi levada a sério por Inês, que fez todo o seu percurso académico neste sentido. Com este objectivo. Tem 21 anos e acabou no passado Verão a licenciatura em Teatro, ramo de Produção, na Escola Superior de Teatro e Cinema, em Lisboa. Se pudesse, passaria o resto da vida a "organizar toda a parte logística de montar um espectáculo cénico" - seja teatro, cinema ou televisão.
"Sempre fui boa aluna e nunca chumbei", contou ao PÚBLICO, em jeito de justificação, antes de deixar cair que "por acto de desespero e porque não aguentava mais estar deprimida em casa" está a fazer formação para trabalhar num call center. Nunca imaginou. Dos bastidores dos espectáculos passou para a fidelização de clientes numa empresa de telecomunicações. "Durante o curso sempre fiz várias produções e trabalhei, sem ganhar, em projectos e espectáculos de professores. Via isso como formação e acreditava que, depois da licenciatura, poderia continuar a trabalhar com eles já com ordenado." Mas não continuou.
Mal o curso acabou, Inês percebeu que o mercado não tinha espaço para si a não ser a preço quase zero. "É uma grande frustração. Quando o curso acabou as oportunidades desapareceram todas", lamenta. No último ano ainda estagiou numa produtora que faz telenovelas e chegou a ser chamada para um trabalho pontual. "Mais tarde convidaram-me para ficar a recibos verdes, sem horários e a trabalhar mais de 12 horas por dia. Tive de dizer que não, para poder acabar os projectos de final de curso e se tivesse ficado seria mesmo por gosto. O que pagavam não dava para fazer uma vida fora de casa dos pais."
Inês rejeita que a sua geração seja vista como perdida. E promete "correr atrás das coisas". Mas admite: "O facto de gostarmos de uma coisa faz-nos aceitar situações de precariedade e eu e os meus colegas estamos todos assim. Já enviei mais de 20 currículos e, quando me respondem, é sempre para dizer que as coisas estão complicadas. Tive de abrir o leque. Também já estive numa loja a ser explorada e onde nem as horas extraordinárias pagavam."
Decidiu apostar em formação, nomeadamente na área da fotografia e maquilhagem. "E percebi que a formação só ajuda a ocupar o tempo mas não me vai trazer trabalho. A minha auto-estima vai diminuindo e o meu medo é que perca a prática. Neste momento é tudo decidido por sorte e por ter amigos, mas eu vou continuar a procurar até me sentir profissionalmente realizada e porque acredito que um dia vai haver lugar para o que é bom." Quando olha para a irmã, "que aos 28 anos é advogada e tem a vida feita", não deixa de pensar que também ela um dia quer ter "casa própria, emprego, marido, filhos e ser feliz".
Ana, 30 anos, é arquitecta mas nunca teve um contrato
Ana este Verão teve pela primeira vez férias pagas. Não. Não recebeu subsídio de férias. Simplesmente não deixou de receber o ordenado por tirar 15 dias de descanso. Instabilidade no emprego para quem começa? Nada disso. Ana tem 33 anos e licenciou-se em Arquitectura de Interiores pela Faculdade de Arquitectura da Universidade Técnica de Lisboa e, depois, em Arquitectura na Lusíada. Antevia um mercado difícil quando entrou na Ordem dos Arquitectos em 2004, mas tinha uma formação dupla. E bastante experiência. Passou por vários ateliers, mesmo antes de ter concluído a primeira licenciatura. Nunca pensou entrar na casa dos 30 sem sequer saber o que é um contrato de trabalho. Só conhece os recibos verdes.


