Vaz Correia alvo de processo disciplinar

O procurador poeta e a juíza sem sentido de humor

20.10.2010 - 17:26 Por Paula Torres de Carvalho

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Esta é a história de um procurador poeta, de uma juíza sem sentido de humor e de um início divertido de uma audiência de julgamento sumário, no passado dia 7, no 7º juízo cível, em Lisboa.

Conforme consta na acta, a audiência foi declarada aberta apenas às 9h20 dessa manhã, em vez de às 9h00 como estava marcado, já que só a essa hora compareceu no tribunal o “digno magistrado” do Ministério Público, José Vaz Correia. Caso não tivesse a juíza Catarina Pires sido informada da sua chegada ao tribunal às 9h18, o julgamento ter-se-ía iniciado mesmo sem a sua presença, informou-o a magistrada assim que ele entrou. Ao ser-lhe dada a palavra, o magistrado achou por bem explicar ao tribunal os motivos do seu atraso que provocara o adiamento do início da audiência.

Fora um “lapso evidente e único com o seu despertador”, começou. Costuma sempre pô-lo a despertar “às 07h00 horas da manhã ou até antes”. Mas, naquele dia, “na maior das certezas e excepcionalmente, sem que alguma vez lhe ocorra ter acontecido, o relógio não despertou”.

Vaz Correia acordou assim convencido de que eram 06h40 horas da manhã. “Pôs o rádio a trabalhar, como habitualmente, ouviu as notícias e dirigiu-se para o Serviço”, conta. “Foi confirmar por que o relógio (telemóvel) não despertou e verificou que estava na posição de desligado”. Isto só o referido procurador reparou “já vinha quase a chegar ao tribunal”. Aliás, esclarece ele, “estava no café a tomar o pequeno-almoço”, sucedendo, inclusivé, que “escreveu várias quadras dentro do metro, como aliás, o faz frequentemente.”

Foi nesta altura do relato que a juíza declarou interrompida a audiência, “atendendo a que se mostrava momentaneamente indisposta”, como consta na acta.

Enquanto isso, o procurador solicitou ao funcionário para lhe trazer o casaco do gabinete, para que pudesse tirar do bolso e ler algumas das quadras que escrevera e que quis que ficassem “expostas em verso”. E que passou a ler assim que a magistrada regressou à sala de audiências:

Adoro levantar cedo

E ter a obrigação cumprida

dos falsos tenho medo

são o pior que há na vida

(...)

São sete e pouco da manhã

Viajo de metro para o trabalho

Fi-lo ontem, falo-ei amanhã

Só sou aquilo que valho

Os comboios já vão cheios

Muitos se levantam cedo

Nas mulheres aprecio os seios

Mas têm outro enredo

(...)

Viajam brancos e pretos

Nacionais e estrangeiros

Alguns vivem em “guetos”

Outros em lugares foleiros

(...)

Entram uns, saem outros

É o frenesim da manhã

Levam-se alguns encontrões

Levo eu, e mulher minha.

E com este verso anunciou o procurador ser tudo “quanto a quadras” . Mas prosseguiu as suas explicações acerca dos motivos do atraso. “Sucedeu que, às 09h15, telefonou-lhe o funcionário Luis dizendo-lhe que tinha uma diligência marcada. Vaz Correia, que estava no café a tomar o pequeno-almoço, respondeu-lhe que iria de imediato para o tribunal, como foi, salienta. Só que demorou “alguns minutos a ler o jornal, pois estava convencido que o julgamento era às 09h15. “É tudo” concluiu.

E a juíza voltou a interromper a audiência por momentos.

Ao regressar, determinada, proferiu um despacho para que fosse extraída certidão daquela acta “para efeitos disciplinares” e para que fosse remetida ao Conselho Superior do Ministério Público.

E é assim que o procurador Vaz Correia, de 59 anos e com veia de poeta, corre agora o risco de ser alvo de um processo disciplinar em consequência de o seu despertador não ter tocado e de ter feito questão de dar conhecimento ao tribunal da sua sensibilidade poética.

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Comentário + votado

Estados de alma

E assim se gasta o tempo e o dinheiro dos protugueses, estados de alma... quem já foi ao tribunal, ...

Anónimo

21.10.2010 09:19

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