• TENS, a produtora de conteúdos que levou dois portugueses para Barcelona
  • Portugueses estão solidários com os gregos
  • Kiev, a porta de entrada da Ucrânia

Reportagem - Os pescadores mortos no mar

O mar estava à nossa espera, o desgraçado

30.03.2010 - 09:28 Por José António Cerejo

  • Votar 
  •  | 
  •  0 votos 
Em três meses morreram 13 pescadores em Portugal Em três meses morreram 13 pescadores em Portugal (Enric Vives-Rubio)
"Estava uma noite calma e mar chão. Mas ele estava ali à nossa espera, o desgraçado." Ali era a foz do rio Minho, frente à praia chique do Moledo, às portas de Caminha. E ele era o mar choco, inocente, subitamente odioso, que em três segundos levou o Alfredo, o Rui e o Manuel. António Alonso só pensa nos três irmãos, o primeiro de sangue e os outros de sempre, que o desgraçado sacrificou sabe-se lá porquê.

Já lá vão duas semanas, mas António Alonso, salvo por um triz, com as costelas partidas, cheio de dores, treme e soluça. É a outra face da força indomável com que se bateu, corpo-a-corpo, durante duas horas, contra as vagas assassinas e o frio paralisante da noite de 3 de Março. Agarrado a umas tábuas e a outro sobrevivente, Vítor Santos, cunhado do Rui e do Alfredo, também eles "irmãos de sangue" um do outro, António resistiu a tudo para não faltar aos camaradas. "Se soubesse que eles não se salvavam, tinha deixado de lutar, antes queria ter ido com eles."

O mar, nas palavras dos que nele ganham o pão, é a luz e a escuridão, a promessa e a desilusão. Ele abraça e escorraça, ele ama e atraiçoa. É Deus e Diabo. Desde sempre e ainda agora. "Cristo andou em cima das águas para mostrar que o bem era superior ao mal. E o mal era o mar", acredita Vítor Santos.

Neste Inverno, mortífero como há décadas não se via, foi o danado que se sobrepôs a todas as outras visões que habitam as comunidades piscatórias do litoral português. Em três meses, Alfredo, Rui, Manuel, João, António, Amâncio, Gilberto, Basílio, Amândio, José, Manuel, Fernando e José somaram-se à lista interminável das suas vítimas.

Um balanço, neste caso apenas de pescadores profissionais, feito de 13 vidas tragadas pelas ondas entre Caminha e Setúbal, passando pela Areosa e Castelo do Neiva, junto a Viana do Castelo, e pela Areia Branca, perto de Peniche. Treze homens diferentes, mas todos com histórias semelhantes, muitas lágrimas e sustos, naufrágios próprios ou alheios, uns a acabarem bem, outros em tragédia, vidas construídas no respeito e na desconfiança do mar. Todos sem alternativa, ou incapazes de lhe virar as costas. E uma outra coisa em comum: todos adoravam o mar, mas nenhum lá queria os filhos.

Dir-se-ia que já foi muito pior, nos verdes anos de quase todos eles, no tempo dos seus pais, no tempo dos seus avós. E não seria preciso evocar a mais horrível de todas as desgraças vividas nos mares portugueses em todo o século passado: quatro das 103 traineiras que saíram de Leixões na tarde de 1 de Dezembro de 1947 foram ao fundo, apanhadas por rajadas ciclónicas. Morreram 152 pescadores, que deixaram 71 viúvas e 152 órfãos.

A verdade, porém, é que até Dezembro de 2009 registou-se uma única vítima, tal como em 2008, e na soma dos últimos seis anos não se vai além das 30 mortes. E também é verdade que nos mares de hoje há fatos de trabalho insufláveis, GPS e outras tecnologias que salvam vidas. Falta é saber se estão ao alcance de homens como Alfredo e os seus companheiros de infortúnio: ao alcance dos seus bolsos, cultura e hábitos enraizados.

Caminha
Alfredo, Rui e Manuel

Desde Novembro, a Vimar ainda não tinha saído para o largo mais do que três semanas. E para quem anda na pesca artesanal os subsídios de inactividade são quase uma miragem. Na madrugada de 3 de Março, visto o céu, o mar e a Internet, que a todos dá o estado do tempo, de norte a sul, os cinco amigos partem para a faina com a barra aberta e o mar calado, lembra Vítor Santos.

Alfredo Alonso (48 anos e duas filhas adultas) e António Alonso, o mestre (47 anos, um filho de 12 e uma filha maior), são irmãos e donos da traineira de dez metros. Ambos cresceram nela, que já era do pai e tinha sido palco da morte do "falecido Lopes", há uns quarenta anos.

Rui Vasconcelos (45 anos, uma filha e um filho maior que se livrou do mar) e Manuel Vasconcelos (46 anos e uma menina de 14 anos) também são irmãos e começaram com o pai, ainda crianças, na Irmãos Unidos. Vítor Santos, 59 anos, cunhado dos Vasconcelos, três filhos, nenhum dos quais na pesca, é o único que chegou tarde às traineiras, depois de 30 anos em França. Foi para lá em miúdo e foi lá que aprendeu e praticou as artes do ferro, da serralharia à caldeiraria, que acumula com as do mar.

Estatísticas

  • 83 leitores
  • 7 comentários

URL desta Notícia

http://publico.pt/1430199

Comentário + votado

Esta é a nossa Terra

Caminha, coração maravilhoso deste Minho cheio de poesia, onde Deus colocou a paisagem ...

Anónimo

01.04.2010 00:20

X

Mais em Sociedade (17 de 18 artigos)

A extinta BT deu lugar à Unidade Nacional de Trânsito Extinção da Brigada de Trânsito da GNR levou a redução de multas