A polícia alemã não tem pistas. Mas promete não desistir das investigações de um caso que classifica como “extraordinário”. Afonso Tiago desapareceu há 48 dias sem deixar rasto. O rosto sorridente do engenheiro de 27 anos está nas estações de Metro, em postes de electricidade, nas paredes grafitadas de Kreuzberg. Oito mil pessoas assinaram uma petição a pedir ajuda a Cavaco Silva.
Noite de lua cheia, 18 graus negativos. Uma luz branca ilumina as margens do rio Spree, que atravessa o centro da capital alemã. Na zona de Friedrichshain há alguns clubes onde os dias se enfiam nas noites ao som de música electrónica. É aqui que, na madrugada de sábado, 10 de Janeiro, Afonso Tiago, um engenheiro português de 27 anos, decide que não vai continuar a noite com os amigos. Há uma semana que anda meio constipado. Diz que tem coisas para fazer no dia seguinte. Anuncia que vai para casa. Despede-se de um dos companheiros junto à estação de comboios Ostbahnhof, perto daquele que é o maior pedaço que resta do muro que até há 20 anos dividiu a cidade. São 03h40. Não volta a ser visto.
"Em Berlim toda a gente anda a pé, homens, mulheres, a diferentes horas", é perfeitamente seguro, diz Frederico Guincho, 25 anos, o estudante de Ciências Sociais que divide casa com Afonso, no multicultural bairro de Kreuzberg. De resto, apesar do frio, com aquela lua "a noite estava linda", acrescentará outro amigo de Afonso.
O apartamento dos jovens fica no 2.º andar de um prédio na tranquila Forster Strasse. Frederico conta que conheceu Afonso quando, no Verão, pôs um anúncio na Internet - um dos quartos tinha vagado e era preciso rachar despesas com mais alguém. O engenheiro recém chegado à cidade foi, dos vários candidatos que responderam, o que "pareceu mais porreiro".
Afonso é uma pessoa calma, bem-disposta, reservada, contida, organizada. Gosta de viajar, de sair à noite, de se divertir. Até ir para Berlim vivia em Lisboa. Depois de partir, comunicava com os pais, que vivem em Oliveira de Azeméis, praticamente todos os dias, através do Skype. "Não se aborrecia, não se metia em confusões", continua Frederico com uma expressão angustiada. Acende mais um cigarro, olha a neve que cai ininterruptamente lá fora. Este Inverno tem sido duro e "nunca mais acaba".
No final da conversa, mostra o quarto de Afonso. Não sai da ombreira da porta. "Está tudo mais ou menos no mesmo lugar..." Papéis sobre uma secretária, a bicicleta encostada à parede, peças de roupa num estendal interior, junto a uma janela. "A polícia esteve aqui, depois disse que já podíamos mexer nas coisas, se fosse necessário." Não têm mexido muito, só deram um jeito quando uma equipa da televisão de Berlim, a RBB, foi lá fazer uma reportagem.
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O percurso indicado no blogue entretanto criado - http://findafonsotiago.blogspot.com/ - como sendo aquele que Afonso teria escolhido naquela noite de lua cheia, é apenas um caminho provável, entre outros, diz António José Leite, jornalista da RTP, irmão de Afonso.
O engenheiro, que há seis meses foi para Berlim para testar equipamentos de satélites e naves espaciais - alguns dos quais poderão vir a ser utilizados na missão europeia a Mercúrio -, terá saído de Ostbahnhof, eventualmente atravessado uma das pontes (a Schillingbrücke) sobre o Spree gelado, para fazer um percurso até casa que demoraria cerca de 20 minutos.
Terá passado um pequeno largo coberto de neve, à sua esquerda, depois um jardim com uma igreja, à sua direita, alguns bares frequentados por estudantes, artistas, turistas. Ter-se-há cruzado com pessoas que faziam o percurso inverso, que saíam dos bares em direcção aos clubes de Friedrichshain. Ou não. A zona parece ter-se transformado numa espécie de buraco negro.
Afonso pode ter seguido um caminho mais longo para parar num dos muitos sítios abertos a noite inteira para comer alguma coisa, por exemplo. Ou pode ter cortado caminho por um parque que existe perto de casa.
Hans-Joachim Blume, chefe do departamento de pessoas desaparecidas da Landeskriminalamt (a polícia criminal) de Berlim, desabafa: "O caso do Afonso Tiago é um caso extraordinário."


