O casamento é igual à união de facto e esforçamo-nos menos por mantê-lo

06.03.2011 - 11:01 Por Andreia Sanches
"Um grande amor na vida"? Seis em cada dez dizem que existe. E a maioria dos que acreditam na alma gémea garante que já a encontrou. Muitos dos que se divorciam não pensam voltar a casar-se.
É o retrato de uma sociedade em transformação acelerada. E algo confusa em relação ao que pensar sobre a forma como se vivem hoje as relações amorosas e conjugais. Por um lado, o casamento de papel passado perdeu importância - 65,4 por cento acham que é "equivalente à união de facto". Por outro, a maioria não tem dúvidas de que quando alguém decide casar-se está a dar um dos passos mais importantes na vida.
Ainda assim, generalizou-se a ideia de que hoje os casais não se esforçam tanto para manter o casamento. E que são menos tolerantes com as falhas da cara-metade - mais de oito em cada dez portugueses pensam assim.
A família, essa, continua a ser central na nossa vida. Mais do que a carreira, ou a segurança económica, por exemplo. Mas a maior parte das pessoas (86 por cento) acha que, por estes dias, ela é vista de forma diferente. E que funciona pior (ver entrevista nestas páginas). É o que revelam os resultados do estudo de opinião realizado em Fevereiro, pela Intercampus, para o PÚBLICO, com base numa sondagem telefónica a 1005 pessoas.
Com os divórcios a aumentar e o número de casamentos a cair a pique nos últimos anos, podia pensar-se que os portugueses perderam o romantismo. Mas longe disso. Seis em cada dez (59,9 por cento) estão convictos que existe aquilo a que se chama "a alma gémea" - os mais jovens, entre os 16 e os 34 anos, em particular.
Não é apenas uma convicção esta, a de que na vida há "um grande amor": a maior parte das pessoas que a partilham garante que já o encontraram (76 por cento).
Pedimos a três sociólogos que estudam a família e a conjugalidade em Portugal, a uma terapeuta familiar e a um psiquiatria para comentar os resultados da sondagem. Todos sublinham que ela não pode deixar de ser lida à luz do momento em que é feito este inquérito. E que momento!
A primeira década do século XXI foi marcada por mudanças tão profundas como esta: "Metade dos nascimentos de crianças em Lisboa já acontece fora do casamento, os pais não são casados. Eu própria fiquei abismada com estes dados, de 2009, e acompanho-os há muitos anos", diz Anália Torres, socióloga, professora do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas, em Lisboa, e co-autora da lei do divórcio que entrou em vigor em 2008.
Como estamos a lidar com estas mudanças? "Nalguns casos, como sendo ameaçadoras", diz Gabriela Moita, psicóloga e terapeuta familiar no Porto. Também isso, diz, se reflecte nestas respostas.
43 por cento dos divorciados não pensam voltar a casar-se
"A permanência do mito romântico não é nada contraditória com o aumento dos divórcios", defende Pedro Vasconcelos, sociólogo e investigador do Instituto Superior da Ciência do Trabalho e da Empresa, em Lisboa. "Aliás, as pessoas acreditam tanto na relação que podem construir que não estão dispostas a viver algo que não seja a relação certa."
Sofia Aboim, do Instituto de Ciências Sociais, em Lisboa, com vários estudos publicados sobre conjugalidade e família, alinha na mesma ideia: "Se calhar, a insatisfação conjugal é cada vez maior porque o mito do romantismo constrói mas também destrói. Ou seja, deposita-se tantas expectativas na relação com uma pessoa, numa relação que vai preencher a existência, que depois a exigência colocada sobre a relação é tão grande que se pode tornar problemática, é uma fonte de frustração". Entre 2000 e 2009, a taxa bruta de divórcios passou de 1,9 por mil habitantes para 2,5, segundo o Instituto Nacional de Estatística (INE). Na década anterior, tinha aumentado apenas 0,8 pontos.
O que mostra a sondagem? A generalidade (60 por cento) das pessoas acredita que o casamento "é uma união que se pode dissolver". Uma convicção partilhada mesmo pelas que se dizem religiosas - e que representam 77 por cento da população.

