Simon Holland é o rosto das averiguações em torno do caso de 105 doentes canadianos sujeitos a um tratamento semelhante àquele que foi feito a seis pessoas em Lisboa. Nenhum ficou cego, mas os casos foram bastante mais do que os 36 de que se tem falado. Ainda hoje não se sabe qual foi a causa das reacções adversas do uso oftalmológico do Avastin no Canadá, onde a investigação está terminada.
O oftalmologista Simon Holland, de 57 anos, da Universidade da Columbia Britânica, em Vancouver, foi um dos rostos da investigação ao que correu mal no Canadá. Presidiu à task-force que investigou o caso, com a ajuda de três instituições - o Centro para o Controlo de Doenças da Columbia Britânica (BCCDC), o departamento federal Health Canada e a Universidade Columbia Britânica, a que Holland pertence.
Esta entrevista foi feita por e-mail, respondida da Tanzânia, onde está o especialista em córnea, com acesso limitado à Internet.
Em Dezembro de 2008, as empresas Genentech e a Roche, que desenvolveram e vendem o Avastin, relataram 36 casos adversos no Canadá devido ao uso oftalmológico deste fármaco. Este é o número total de casos até ao momento?
Não. Temos 105 casos relatados à task-force. Estes casos ocorreram entre Outubro de 2008 e Janeiro de 2009. Foram feitas investigações detalhadas em três sítios de três grandes cidades, pelo BCCDC, pelo Health Canada e pela nossa universidade. [No total] tivemos 13 situações em oito cidades do Canadá. Apresentei esta informação à Genentech.
Que doenças oftalmológicas foram tratadas com o Avastin? E que sintomas apresentaram os doentes depois do tratamento?
Tinham principalmente degenerescência macular da idade, mas também uma variedade de doenças vasculares da retina, como a diabética. Os sintomas eram sobretudo visão turva. Havia sinais de inflamação [ligeira e moderada], mas era estéril, ou seja, não era infecciosa. Isto é muito importante.
Entre os 36 casos relatados, diz-se que 25 estavam relacionados com um lote específico (B3002B028). Qual era o problema neste lote?
Todas as investigações - da Health Canada, das empresas e de nós próprios, independentemente - não mostraram uma causa óbvia.
O Avastin estava contaminado, por exemplo, por bactérias?
Não.
Havia algum problema com a própria molécula do Avastin?
Suspeitava-se disso, mas isso não foi encontrado.
O fármaco apresentava alguma alteração por ter sido mal armazenado ou manuseado?
Essa era a nossa teoria, mas ficou por provar, porque o lote foi armazenado e distribuído normalmente.
Ou será que foi o próprio Avastin que provocou as reacções adversas por poder ser tóxico?
Acho isso muito improvável. Porque a associação com um lote específico foi muito elevada, os casos acabaram quando se parou com o uso do lote e voltámos a usar o Avastin de forma idêntica sem nenhum problema ao longo dos últimos sete meses de vigilância.
Nos restantes casos relatados, qual era o problema?
Era o lote.
Na investigação, além de amostras do lote, também foram recolhidas as ampolas usadas nos hospitais? Como é que se pode ter a certeza de que as amostras testadas são oriundas das mesmas ampolas usadas nos doentes? Também recolheram líquido dos olhos dos doentes e sangue para ver se a molécula do Avastin estava lá presente?
Tivemos três investigações em simultâneo da Health Canada, dos BCCDC e da Universidade da Columbia Britânica. Todos os factores que mencionou foram confirmados e reconfirmados, e todos eram coincidentes. Nove dias depois do primeiro relato e de uma investigação urgente, para confirmar as suspeitas em relação ao lote, emitimos um aviso aos oftalmologistas canadianos.
Entre as reacções adversas associadas ao Avastin no mundo, relatadas na literatura científica, há casos de endoftalmites [inflamação nos olhos]?
Sim, mas a percentagem não é maior do que a do Lucentis [fármaco, mais caro, com indicação específica para a degenerescência macular da idade].
Que percentagem dessas endoftalmites acabaram em cegueira?
Nenhum dos nossos casos perdeu a visão devido à inflamação.


