"Nunca pedi dinheiro a ninguém e nunca recebi dinheiro de ninguém", garante Vara

19.11.2009 - 07:26 Por Lusa
O ex-ministro socialista Armando Vara, arguido no caso Face Oculta, foi ouvido quarta-feira no Juízo de Instrução Criminal de Aveiro mas continuará a ser inquirido a 27 de Novembro, apesar de negar todas as acusações que lhe são feitas no processo.
“Estou tranquilo, porque não fiz nada do que me acusam. Nunca pedi dinheiro a ninguém e nunca recebi dinheiro de ninguém.
Isso é completamente falso”, disse Armando Vara aos jornalistas, à saída, acrescentando: “As acusações que são feitas no processo nunca aconteceram e estou certo que o julgamento provará o que acabo de dizer”.
O arguido não quis responder a questões relacionadas com o processo, por não querer contribuir para aquilo que chamou de “fugas selectivas” ao segredo de Justiça.
“As fugas ao segredo de Justiça são sempre no mesmo sentido, têm sempre o mesmo objectivo, são cirúrgicas e são preparadas e eu não quero entrar nisso”, justificou.
O vice-presidente do Millenium/BCP, que suspendeu as suas funções na sequência deste caso, entrou ao início da tarde no Juízo de Instrução Criminal de Aveiro acompanhado pelos seus advogados Tiago Rodrigues Bastos e Godinho de Matos e, tal como o próprio afirmou, esteve a consultar uma “vastíssima documentação” que foi colocada ao seu dispor.
Armando Vara referiu ainda que iniciaram uma fase de resposta a algumas perguntas do magistrado titular do processo.
O interrogatório que foi suspenso cerca das 00:00 horas vai continuar no próximo a 27 de Novembro, à tarde.
Segundo fonte judicial, Armando Vara, à semelhança do presidente da REN-Redes Eléctricas Nacionais, José Penedos, e o filho deste último, Paulo Penedos, é apontado pelos investigadores como integrando uma “rede tentacular” criada pelo principal arguido, o empresário Manuel José Godinho, administrador de diversas empresas de recolha, armazenagem, triagem e tratamento de resíduos/sucatas que prestam serviços a empresas com ligações ao Estado, como a REN e a REFER-Rede Ferroviária Nacional.
Para os investigadores, adianta a fonte, a execução do plano alegadamente delituoso de Manuel Godinho, que está em prisão preventiva, passaria pelos membros dessa “rede tentacular”, os quais, a troco de vantagens patrimoniais e/ou não patrimoniais, favoreciam ou exerciam a sua influência junto de titulares de cargos governativos e/ou políticos, titulares de cargos de direcção ou de pessoas com capacidade de decidir ou com acesso a informação privilegiada, no sentido de beneficiar as empresas do empresário de Ovar.
Segundo a mesma fonte judicial, os investigadores alegam que na manhã de 25 de Maio de 2009 Manuel Godinho encontrou-se com Armando Vara no seu gabinete no edifício do Millenium/BCP, na Avenida José Malhoa, Lisboa, onde lhe entregou os 10 mil euros que Vara alegadamente havia solicitado para interceder a favor do empresário de Ovar.
Durante a investigação do processo Face Oculta, Armando Vara foi um dos arguidos alvo de escutas telefónicas, tendo as suas conversas com o primeiro-ministro, José Sócrates, suscitado acesa polémica judicial sobre a validade das mesmas, tendo as primeiras seis escutas de conversas entre ambos sido declaradas nulas pelo presidente do Supremo Tribunal de Justiça, Noronha do Nascimento.
No decurso da operação Face Oculta, 15 pessoas foram constituídas arguidas, incluindo Armando Vara, vice-presidente do BCP, que suspendeu funções, José Penedos, presidente da REN, e o seu filho Paulo Penedos, advogado da empresa SCI, de Manuel Godinho.
O processo Face Oculta investiga alegados casos de corrupção e outros crimes económicos relacionados com empresas do sector empresarial do Estado e empresas privadas.

