No Porto à espera de um comboio, um autocarro, uma consulta no hospital

24.11.2010 - 17:12 Por José Faria
Um cordão de elementos da PSP impediu, entre as cinco e as seis e meia da manhã, os elementos do piquete de greve presente na Estação de S. Bento, no Porto, de aceder àqueles trabalhadores que se encontravam nos comboios. E, garante um dos grevistas, nem a amostragem de bilhete, exigida pela polícia para se atravessar o cordão, permitiu a aproximação às carruagens das composições que se preparavam para partir.
O objectivo do piquete era o de convencer os trabalhadores a não arrancarem com os comboios mas foram três os que partiram, durante aquele período, os primeiros desde a meia-noite. Perto das sete já a situação, “inconstitucional”, palavra dos grevistas, estava normalizada.
Um dos pouco comboios que chegaram às estações do Porto transportou Augusta Magalhães desde Penafiel. Esperou uma hora e meia até que tivesse transporte. Veio ao Porto ter duas consultas no Hospital Santo António, mas a da manhã não chegou a acontecer. A CGTP diz que os números de adesão à greve geral no hospital são de 100 por cento, mas Augusta Magalhães acaba por ouvir o seu nome pouco antes das 14h00. Vê-se no sorriso que se segue à chamada, que a consulta da tarde fará com que a viagem não seja dada por perdida.
Em frente ao Teatro Sá da Bandeira, pára um autocarro da STCP. “Fora de Serviço”, mas a inscrição é apenas momentânea. Em breve será substituída por um destino. O motorista apresentou-se ao serviço e, como 20 por cento dos motoristas da STCP, vai trabalhar. A sua situação laboral, “contracto com duração de um ano e meio, renovável”, é a mesma da maioria dos que não se juntaram ao protesto e conduzem os poucos autocarros que circulam pela cidade. Os grevistas, por seu lado, “efectivos na sua maioria”, “compreenderam” a situação dos que não fazem greve. Isto porque “é certinho”, se fizermos greve não nos renovam o contracto”, afirma.
E o autocarro que conduz só circulará porque os piquetes de greve que se encontravam nos centros de recolha da STCP foram obrigados, por agentes do corpo de intervenção da PSP, a abandonar a frente dos portões onde se encontravam. Entre as seis e meia e as sete da manhã, cerca de 40 autocarros terão saído do centro de recolha de Francos e, às 07h45, mais 30 abandonaram a estação de recolha da Via Norte. Nessa altura, a adesão à greve que, segundo o Sindicato Nacional de motoristas, chegou a ser de cem por cento durante toda a madrugada, passou a ser de 80 por cento.
Nas paragens da STCP a espera pelos autocarros foi longa, mas feita por menos do que é habitual. Maria Cardoso ficou sozinha numa paragem depois de os poucos que com ela aguardavam transporte público terem sido levados pelo único autocarro que passou nos últimos 20 minutos. De manhã, já fez a mesma espera, embora sem que tenha conseguido chegar ao Instituto Politécnico do Porto, onde trabalha: “Devem ter achado que fiz greve, mas não”. “Só não tive como ir trabalhar”, esclarece. Maria Cardoso espera agora ter mais sorte e conseguir chegar a tempo ao seu segundo emprego, onde pega às duas.
Quem não quis saber de autocarros para ir para a escola foi António Barros, aluno do 11º ano. Embora seja grande a distância que tem de percorrer desde sua casa, na Foz, foi a pé. A paragem que normalmente usa para apanhar o autocarro estava cheia de estudantes: “Gente para trabalhar, não vi muita”.
Encontra-se agora com dois colegas. Já passa das onze da manhã e os três estudantes insistem, ou não têm como, em abandonar o passeio que dá acesso à escola Básica e Secundária Rodrigues de Freitas. Dentro, soa o toque de saída das 10h55 mas as portas das salas continuam fechadas. Ninguém sai para os corredores ou desce as escadas.
Na porta de ferro e vidro do “edifício concluído sob governo da ditadura nacional”, no ano de 1933, como inscrito na placa que é visível do passeio, está um aviso: “Por motivo de greve não estão asseguradas as condições mínimas de funcionamento”.

