Neurocirurgiões colocam eléctrodos no cérebro para tratar doenças psiquiátricas

24.09.2009 - 14:14 Por Andrea Cunha Freitas
Chama-se estimulação cerebral profunda e a sua aplicação mais conhecida surge no campo da doença de Parkinson. No domínio das doenças psiquiátricas, a equipa de Fernando Gomes, director do Serviço de Neurocirurgia dos Hospitais Universitários de Coimbra, foi a primeira (e a até agora a única no país) a avançar com esta abordagem, que implica a colocação de eléctrodos no cérebro para tratar obsessivos-compulsivos. O próximo alvo serão os casos de depressão grave, que poderão arrancar já em 2010. A agressividade impulsiva é outra das possíveis aplicações desta psicocirurgia.
No misterioso mapa do nosso cérebro há muitos alvos que já revelaram ser importantes para o tratamento de doenças. As respostas da medicina têm evoluído, desde provocar lesões irreversíveis ao desenvolvimento de inovadores fármacos e terapias comportamentais. Mais recentemente, chegou a vez da estimulação cerebral profunda. Em Portugal, os primeiros a beneficiar foram os doentes de Parkinson, em 1992. Hoje, o tratamento dispendioso (cerca de 25 mil euros) para alguns parkinsonianos transformou-se quase numa operação de rotina.
A estimulação cerebral profunda tem outras aplicações, basta mudar o sítio onde são colocados os eléctrodos no cérebro. Fernando Gomes é, no entanto, o único neurocirurgião que se aventurou no campo de doenças psiquiátricas como o distúrbio obsessivo-compulsivo, apontando para o alvo do "leito do núcleo stria terminalis". Em 2006 fez a primeira intervenção, um homem de 47 anos que teve melhoras significativas. "Esteve desempregado durante cinco anos e passados quatro meses da cirurgia já tinha retomado o emprego", refere o especialista dos HUC. Apesar de promissor, o caso acabou por ter um desfecho imprevisível. "O doente morreu com uma embolia pulmonar após seis meses", lamenta. Em 2008, a equipa do neurocirurgião operou o segundo doente. "Um homem de 37 anos que hoje é um pequeno empresário independente", nota, satisfeito. Geralmente, os primeiros resultados surgem após três meses da cirurgia, com tem uma taxa de sucesso entre os 70 e os 80 por cento.
O distúrbio é "altamente incapacitante" e os candidatos à cirurgia serão os que não reagem a medicação ou terapia comportamental (entre 70 e 80 por cento dos casos resolvem-se desta forma). A lei exige ainda uma autorização de dois psiquiatras que nunca tenham contactado com o doente e nomeados pelo Conselho Nacional de Saúde Mental. "Temos de ter a certeza que é um obsessivo-compulsivo e esgotar todas as outras possibilidades de diagnóstico, como algumas formas de esquizofrenia, com as quais pode ser confundido", refere, adiantando que já foram rejeitados três candidatos. Actualmente, há um caso em estudo e Fernando Gomes espera conseguir manter um ritmo de uma intervenção por ano. Em 2010 deverá realizar-se a primeira estimulação cerebral profunda dedicada à grande depressão. "Tenho os avanços nesta cirurgia experimental debaixo de olho", admite. Noutros centros, a cirurgia tem sido tentada e é preciso esperar resultados mais sólidos para tomar a decisão do alvo a estimular. "Estamos à espera de alguns candidatos que aceitem participar numa cirurgia experimental. Queremos avançar com passos seguros. Talvez em 2010".

