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Entrevista com o presidente do ICN

"Não é expectável que seja apenas o Estado a custear a conservação da natureza"

23.11.2005 - 09:53 Por Ana Fernandes, PÚBLICO

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João Menezes foi escolhido há um ano para presidente do ICN João Menezes foi escolhido há um ano para presidente do ICN (André Kosters/Lusa)
Na sessão solene que hoje se realiza no CCB, em Lisboa, para celebrar 30 anos do Instituto de Conservação da Natureza, o assunto não podia ser mais actual: como se financia este esforço? Só com o Orçamento do Estado é que não pode ser, defende o actual presidente.

João Menezes foi escolhido há um ano para presidente do Instituto da Conservação da Natureza (ICN) devido ao estudo que fez sobre a reorganização do organismo. Agora prepara o caminho para a reestruturação, que assenta na transferência - para a sociedade em geral e para os que beneficiam dos valores naturais em particular - de parte dos custos de manter a biodiversidade nacional. A conservação da natureza está num ponto de viragem, diz.

PÚBLICO - Qual será o futuro do ICN?

JOÃO MENEZES - Na agenda deste ano estavam em causa três coisas: a primeira era esgotar as possibilidades de reorganização e de eficácia na lógica em que funciona hoje o ICN. A segunda seria definir uma lei-quadro e fechar um conjunto de projectos estruturantes, como o plano sectorial da Rede Natura. Em terceiro lugar, prepararíamos o próximo ano no que diz respeito ao financiamento da conservação da natureza e à reestruturação funcional do instituto.

O que fizeram para esgotar a optimização do actual modelo?

Começámos pela descoordenação financeira e administrativa do instituto. Encontrámos uma situação bastante difícil, que já mudou radicalmente: os processos estão organizados, as informações que vêm são sustentadas e do ponto de vista financeiro pagámos até ao limite das nossas possibilidades as dívidas que existiam. Não as pagámos ainda todas mas vamos chegar lá.

O que é que falta pagar?

Vamos pagar entre 2,5 milhões a três milhões de euros de dívidas este ano e não posso adiantar quanto falta porque há situações que estão em tribunal.

Por que é que o actual modelo do ICN está esgotado?

A política de conservação da natureza faz-se por duas vias: pela autoridade do Estado, pelos mecanismos de ordenamento do território e da regulamentação, mas também pela da compensação em relação às populações. Tem de haver outra lógica que tem que ver com a contratualização com os parceiros, com os particulares para que possam dar algum valor acrescentado sem pôr em causa os valores naturais. Tem de se arranjar um modelo que faça o equilíbrio das duas vertentes. Não está em causa a privatização mas tem de haver formas mais flexíveis.

Como?

Uma das hipóteses é a figura da entidade pública empresarial, que, por um lado, permite manter a autoridade da administração pública e, por outro, ter mecanismos de flexibilidade para fazer essa contratualização e operacionalização no terreno.

Dê-me um exemplo prático de uma contratualização.

Há um projecto, já em aplicação, para o parque marinho Luís Saldanha (Arrábida) em que se pretende aumentar e sedimentar as algas marinhas no fundo do mar, que são a infra-estrutura para outras espécies. Este projecto, que é iminentemente de conservação, também gera recursos económicos para a pesca e o turismo. Tem um conjunto de parceiros, como as universidades, mas também tem uma empresa da região que financiou parte deste projecto.

Como é que se poderá financiar a conservação da natureza em Portugal?

No Orçamento do Estado há um ligeiro acréscimo em relação ao ano passado, embora o reforço seja da parte nacional, já que o investimento comunitário diminui. O financiamento da conservação da natureza passa também pela integração de políticas. Mas não é expectável que seja apenas o Orçamento do Estado a custear a conservação da natureza. Deve-se pensar numa forma de taxação dos que ganham com ela. O ICN tem também que gerar receitas próprias, seja pela prestação de serviços seja por essa taxação.

Que tipo de taxação?

Não temos ainda definido, mas os que são beneficiários de um território qualitativamente melhor devem suportar as mais-valias de que usufruem.

É exequível cobrar taxas aos visitantes das áreas?

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