"Mufti" saudita diz que impedir raparigas de 10 anos de casar é uma "injustiça"

14.01.2009 - 18:27 Por PÚBLICO
Um clérigo sénior da Arábia Saudita disse hoje aos seus seguidores que é admissível que raparigas de dez anos possam casar e que todos aqueles que acham que elas são demasiado novas para o fazer estão a cometer uma “injustiça” para com essas raparigas.
Abdul-Aziz ibn Abdullah Al ash-Shaykh , o “grande mufti” do país, afirmou, citado pelo “Daily Mail”: “É errado dizer que não é permitido casar raparigas que têm 15 anos e menos”. “Uma rapariga que tenha dez ou doze anos está tão apta para se casar e todos aqueles que acham que é demasiado nova estão a ser injustos para com ela”, disse o religioso, durante uma cerimónia religiosa, na passada segunda-feira.
Os comentários do “mufti” acontecem numa altura em que várias associações de defesa dos direitos humanos sauditas estão a alertar para o problema do casamento com crianças, tentando forçar o governo a rever esta norma socialmente aceite e a estabelecer uma idade mínima para o matrimónio.
Nos últimos meses os jornais sauditas têm dado conta que diversos casos em que raparigas muito pequenas são forçadas a casar-se com homens muito mais velhos.
Apesar das declarações do “mufti” – uma figura que serve de ponte entre a pura jurisprudência e o Islão actual e que está qualificado para emitir uma "fatwa" – serem normalmente respeitadas e servirem como guia no país, o governo saudita não está legalmente comprometido com elas.
No domingo, a Comissão de Direitos Humanos, gerida pelo governo, condenou casamentos com crianças menores, declarando que esses casamentos são uma “violação desumana” e privam as crianças dos seus direitos.
No passado mês de Dezembro um tribunal da localidade saudita de Oneiza rejeitou o pedido de anulamento de um casamento entre uma rapariga de oito anos e um homem na casa dos 50 anos. O pedido tinha sido entregue pela mãe da criança, cujo casamento foi planeado pelo seu próprio pai.
O tribunal terá argumentado que a mãe não teria o direito de apresentar o pedido de divórcio em nome da filha porque a petição deverá ser apresentada pela própria filha, quando ela chegar à puberdade.
Questionado acerca do que é que pensa sobre os pais que forçam as suas filhas menores a casarem-se, o “mufti” disse: “Ouvimos muitas coisas acerca de casamentos nos media e é preciso que se saiba que a lei islâmica não trouxe injustiça às mulheres”.
O religioso acrescentou ainda que uma boa educação torna uma rapariga capaz de levar a cabo as suas tarefas como esposa e que todos aqueles que acham que uma rapariga não deve casar antes dos 25 estão a seguir “por um mau caminho”.
“As nossas mães, e todas as que vieram antes, as nossas avós, casaram quando tinham cerca de 12 anos”, disse, de acordo com o jornal “Al-Hayat”.
Não há dados que provem quantos casamentos acontecem anualmente na Arábia Saudita envolvendo menores. Também não é claro se esses casamentos estão a aumentar ou se, pelo contrário, serão uma prática em vias de extinção.

