Na Catedral de Freising, na Alemanha, o Papa Bento XVI fez ontem algo que não é habitual: pôs de parte o texto que tinha previamente preparado. Falou da sua própria fragilidade e pediu ajuda aos padres e bispos que o estavam a ouvir. Foi um dos momentos importantes do último de seis dias de viagem à Baviera, marcado também por duras críticas de líderes religiosos muçulmanos a um discurso proferido na terça-feira.
Numa intervenção na Universidade de Regensburg, onde no passado leccionou, o Papa explorou as diferenças históricas e filosóficas entre o Islão e o Cristianismo e a relação entre violência e fé. A certa altura, citou um imperador bizantino do século XIV (Manuel II Paleólogo), segundo o qual Maomé trouxe ao mundo coisas "más e desumanas, como o direito a defender pela espada a fé que ele persegue". O Papa sublinhou, por duas vezes, que a expressão era uma citação. Mas as reacções não se fizeram esperar.
Ali Bardakoglu, director do departamento dos assuntos religiosos na Turquia, foi um dos líderes muçulmanos que disseram sentir-se ofendidos com o discurso de Bento XVI. Considerou os comentários "infelizes" e "preocupantes".
Bento XVI tem um viagem marcada à Turquia para Novembro - será a sua primeira a um país muçulmano. Ontem, Bardakoglu disse, de acordo com a AFP, que não vê nenhum interesse para o mundo muçulmano que uma pessoa que "tem estas convicções" visite o país.
Ao longo destes dias, Bento XVI caminhou pelas ruas, saudou fiéis, visitou o seu irmão Georg Ratzinger, de 82 anos, celebrou uma missa para 250 mil pessoas, manifestou algum pessimismo face ao mundo ocidental que não dialoga com as outras religiões, pediu à sua terra natal para que a fé na razão e na tecnologia não a faça esquecer Deus...
Ontem, em Freising, disse: "Todos temos de respeitar os nossos próprios limites. Há tanto para fazer e não tenho forças para fazer tudo [...] Devo fazer o que posso e deixar o resto a Deus" e aos que trabalham com Ele.
Mas ao final da tarde era ainda o discurso de terça-feira que dominava boa parte das notícias. O Vaticano emitiu mesmo um comunicado onde sublinha que não foi intenção do Papa ofender o Islão.


