Merck vai recorrer da condenação no caso de morte associada ao Vioxx 
21.08.2005 - 09:37 Por Catarina Gomes, PÚBLICO
O laboratório farmacêutico Merck & Co. informou que vai recorrer da decisão que o condenou a pagar cerca de 208 milhões de euros à viúva de um homem que terá morrido devido ao consumo do medicamento Vioxx. Este é o primeiro de um conjunto de milhares de processos que o gigante farmacêutico vai enfrentar nos Estados Unidos e no Reino Unido.
A indemnização que a Merck terá de pagar neste processo deverá, contudo, ser drasticamente reduzida para não mais de 21 milhões de euros porque as leis do estado do Texas limitam as quantias atribuíveis num dos parâmetros contemplados.
Perante a notícia da sentença, a queixosa, Carol Ernst, chorou e os seus advogados gritaram "Ámen, Ámen". "Foi um longo caminho para mim", disse aos jornalistas. "Senti que tinha de percorrê-lo para que outras famílias não tivessem que passar pelo mesmo sofrimento", cita a Associated Press.
Os jurados do tribunal texano rejeitaram o argumento da Merck segundo o qual Robert Ernst, de 59 anos, morreu devido a coágulos nas artérias e não devido a um ataque cardíaco induzido pela ingestão do anti-inflamatório Vioxx, prescrito para a osteoporose, artrite e dor aguda. Ernst, que trabalhava no sector do comércio, corria maratonas e era instrutor de aeróbica.
Milhares de ataques
cardíacos desde 1999
O advogado da Merck, Jonathan Skidmore, disse na sexta-feira que vão apresentar recurso a contestar o que consideram ser "prova científica pouco fiável". "Acreditamos que foram aceites testemunhos de peritos não qualificados. Houve opiniões que não assentaram em ciência".
O caso foi seguido com atenção por laboratórios, advogados e consumidores porque foi entendido como um sinal do que pode voltar a acontecer à Merck. Só nos Estados Unidos o laboratório terá de enfrentar os mais de 4200 processos que tem pendentes, a nível estadual e federal, devido ao Vioxx. John LeCroy, um analista citado pela Reuters, afirma que a empresa tem em mãos um problema que se poderá prolongar "por 10 a 20 anos".
Os processos não deverão ficar limitados aos Estados Unidos. Também no Reino Unido a droga foi usada por cerca de 500 mil pessoas. O advogado Russell Spargo, da firma de advocacia MSB Solicitors, afirmou que "é possível estimar que haverá milhares de pessoas do Reino Unido que podem interpor acções legais", disse à BBC online. Duas firmas de advocacia em Londres e Liverpool deverão representar pelo menos 150 queixosos.
Estima-se que o Vioxx possa ter causado 27.785 ataques cardíacos ou mortes desde que foi aprovado, em 1999. A Merck retirou-o do mercado, também em Portugal, em Setembro de 2004 depois de um estudo que concluiu que o risco de ataques cardíacos e tromboses duplicava em doentes que o consumiam por mais de 18 meses. Mas por essa altura já 20 milhões de pessoas o tinham tomado.
Os analistas especulam que, se a Merck for sendo sempre condenada, o valor total das indemnizações poderá ascender a cerca de 15 mil milhões de euros, reporta a Associated Press.

