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Ainda há em Portugal uma cultura de desvalorização da dor

Médicos e doentes fogem dos medicamentos para dores intensas

30.11.2009 - 09:10 Por Alexandra Campos

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O consumo de medicamentos opióides fortes em Portugal é oito vezes inferior ao de Espanha O consumo de medicamentos opióides fortes em Portugal é oito vezes inferior ao de Espanha (DR)
Faz parte da imagem de marca de Gregory House, o cínico médico da famosa série norte-americana Dr. House: a dependência de um analgésico narcótico (ou opióide), o Vicodin, que ele toma em doses industriais para suportar a dor crónica numa perna e o obriga a um internamento para desintoxicação. Nos Estados Unidos da América isto não é só ficção: há muitas histórias de doentes que se tornaram dependentes deste tipo de medicamentos.

Em Portugal a situação é completamente diferente, garantem vários especialistas contactados pelo PÚBLICO. Nem este medicamento está à venda cá, nem o consumo de fármacos narcóticos é elevado no país.

Pelo contrário. Apesar de ter aumentado ligeiramente em 2008, o consumo de medicamentos opióides fortes per capita é, em Portugal, oito vezes inferior ao de Espanha e 37 vezes inferior ao do Reino Unido, sublinha Castro Lopes, que coordenou o primeiro estudo epidemiológico sobre dor crónica, efectuado pela Faculdade de Medicina da Universidade do Porto e financiado por três laboratórios farmacêuticos. Não será por falta de doentes que isto acontece: 14 por cento dos inquiridos no estudo queixaram-se de sofrer de dor crónica moderada ou forte.

São razões culturais e educacionais que justificam o baixo consumo. "Os médicos têm medo de os prescrever e os doentes têm medo de os tomar", sintetiza Castro Lopes. Os opióides fortes continuam muito associados à dor oncológica e à morte, lamenta.

A somar, persiste uma certa cultura de desvalorização da dor - ainda há muitas pessoas que sofrem em silêncio - e uma série de mitos sobre estes fármacos. O receio de que criem dependência, por exemplo, e que não faz muito sentido se forem usados da forma aconselhada pelos médicos (libertação lenta, para evitar "picos"). Desta forma, os casos de dependência são muito raros, assegura Castro Lopes.

Investir na formação

Ao longo da sua já vasta experiência no Hospital de Santo António (Porto), o presidente da Associação Portuguesa para o Estudo da Dor (APED), José Romão, só se recorda, aliás, de dois únicos casos de doentes que acabaram por fazer "um uso menos adequado" deste tipo de fármacos. Seja como for, os opióides fortes "não se podem prescrever de ânimo leve", nota Teresa Vaz Patto, vice-presidente da APED, para quem seria fundamental investir na formação pré-graduada nesta área.

Enquanto os opióides fortes, medicamentos muito caros (sobretudo na formulação de adesivos), ainda são um privilégio para poucos, em Portugal usam-se demasiados medicamentos anti-inflamatórios não esteróides como analgésicos, sublinham todos os especialistas.

Este facto traduz uma "inversão no perfil de prescrição" que é um reflexo do facto de os opióides terem sido comparticipados apenas em 37 por cento até 2008, ano em que o apoio estatal aumentou para 95 por cento (desde que a prescrição seja feita nas unidades de dor que existem em vários hospitais do país).

Os anti-inflamatórios não esteróides tinham uma comparticipação superior, factor que potenciou o seu uso indiscriminado. "Esta cultura médica de prescrição vai-se alterar, mas devagarinho", acredita José Romão.

Receita é a barreira

Os especialistas em dor querem que as receitas de medicamentos opióides fortes, classificados como estupefacientes, deixem de ser especiais, passadas em triplicado num papel de cor amarela e em livros que apenas são vendidos na Ordem dos Médicos. Esta imposição vem da necessidade de controlar a fuga dos fármacos para mercados ilícitos, mas os especialistas acreditam que, com as receitas electrónicas, tal receio não faz sentido. "Este tipo de receita acaba por criar uma barreira", frisa José Romão. O problema deve ficar resolvido em 2010, antecipa.

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Comentário + votado

Dependência

E se investigassem a fundo a dependência que dá tomar anti-depressivos e calmantes? ...

Anónimo

30.11.2009 16:54

X

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