Será uma santa com um percurso pouco convencional, que inclui uma excomunhão. Mary MacKillop, uma freira australiana que o Vaticano vai canonizar no próximo Outono, chega aos altares depois de uma vida de rebeldia, pelo menos aos olhos de católicos mais ortodoxos. "Mary é uma das nossas. Era uma pessoa extraordinária, que teve uma vida santa", declarou o actual arcebispo de Adelaide, Philip Wilson, presidente da Conferência Episcopal Australiana. Opinião bem diferente chegou a ser a da hierarquia católica local, nos finais do século XIX, com a qual se confrontou.
Aquela que será a primeira santa australiana, conhecida pelos contemporâneos como Madre Maria da Cruz, deixou obra no campo da educação e trabalho com os mais pobres e já era, para os crentes do seu país, e de outros lugares para onde o seu exemplo se expandiu, uma "santa do povo". Quando morreu, em 1909, aos 67 anos, os choques com a hierarquia eram passado e o então arcebispo de Sydney, cardeal Patrick Moran, saudou-a como santa. Na semana passada, depois de ter dado como provados os necessários milagres para a canonização, Roma, pela voz do Papa Bento XVI, concordou.
Filha de emigrantes escoceses, mais velha de oito irmãos, Mary Helen nasceu nos subúrbios de Melbourne em 1842. Aprendeu em escolas privadas, mas também com o pai, que tinha estudado para padre. Aos 16 anos, para ajudar a família, que inicialmente prosperou na Austrália, mas a quem a vida se tinha tornado difícil, começou a trabalhar como explicadora e a ensinar numa escola católica para raparigas.
Em 1866, ano em que completou 24 anos e se tornou freira, abriu a primeira escola num bairro pobre de Penola, incentivada pelo padre e cientista Julian Tenisson Woods, que precisava de ajuda para a educação religiosa das crianças da sua vasta paróquia. A afluência de jovens raparigas levou a que ambos fundassem a Congregação das Irmãs de São José do Sagrado Coração. Em quatro anos, as "josefinas" abririam 34 escolas, mas também centros de acolhimento e orfanatos no Sul da Austrália.
Insubordinação
Desentendimentos sobre matérias educativas, vistos como desobediência pelo bispo de Adelaide, Laurence Sheil, que apadrinhara a criação da congregação, levaram-no a excomungar Mary MacKillop, por insubordinação, em Setembro de 1871. Foram momentos complicados: a maior parte das escolas fechou, as Irmãs de São José quase se dissolveram.
Mas meses depois, em Fevereiro do ano seguinte, a poucos dias de morrer, Sheil revogou a pena. E no ano seguinte, Mary obteve aprovação do Papa Pio IX para a existência da congregação. Só que os conflitos com a hierarquia da Igreja australiana não tinham ainda terminado: ficou também conhecida, nos anos 1880, uma desavença com o então bispo Christopher Reynolds, que lhe ordenou que deixasse a diocese de Adelaide devido a desentendimentos sobre a tutela de escolas e instituições de caridade. Seria de novo um Papa, Leão XIII, a tomar o partido de uma mulher descrita como carinhosa mas determinada, com um enorme amor pelo próximo e grandes olhos azuis como traço físico mais marcante.
"Ao longo da sua vida, Mary enfrentou a oposição de pessoas no exterior da Igreja e também de algumas no seu interior. Nos tempos mais difíceis recusou terminantemente atacar os que erradamente a acusavam e boicotavam o seu trabalho, mas continuou no caminho que acreditava que Deus lhe indicava e estava sempre pronta a perdoar os que a prejudicaram", refere a biografia existente no site da sua congregação.
Em 1901, a fundadora das "josefinas" sofreu um acidente vascular que a deixou presa a uma cadeira de rodas,apesar de ter conservado as faculdades mentais. Quando morreu, em Agosto de 1909, a congregação contava com 750 religiosas e tinha 117 escolas e centros de acolhimento para pobres. A sua acção contribuiu para a difusão do catolicismo na Austrália e Nova Zelândia. As Irmãs de São José do Sagrado Coração, respeitadas pelo seu trabalho com crianças necessitadas, ex-reclusas, idosos, sem-abrigo, aborígenes, novos imigrantes ou prostitutas, estão hoje também no Uganda, Peru, Brasil e Tailândia.
O actual arcebispo de Melbourne, Denis Hart, descreveu Mary como uma mulher de fé, grande educadora, defensora dos pobres e visionária do cristianismo. A canonização "será um grande encorajamento", disse ao jornal australiano The Age. "São amadas pelas pessoas porque partilham as suas lutas e a sua pobreza. Ela e as suas irmãs estiveram sempre muito próximas das pessoas."


