Mais de 80 por cento das mulheres portuguesas não tentam dividir tarefas domésticas

08.03.2005 - 18:08
Mais de 80 por cento das mulheres portuguesas não tentam dividir igualmente as tarefas domésticas com o cônjuge e uma em cada cinco considera indesejável a igualdade em matéria profissional, revela um estudo do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa.
Intitulado "Famílias no Portugal Contemporâneo (1997-2005)", o estudo, disponível na Internet, baseia-se num inquérito nacional e teve por objectivo investigar as formas familiares no Portugal contemporâneo.
Efectuado por vários investigadores do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa entre 1997 e 2005, o trabalho conclui, no que respeita aos "valores da conjugalidade", que, apesar de se assistir a uma modernização, ainda há "uma proporção considerável de mulheres" que assume posições conservadoras.
Segundo o mesmo estudo, uma em cada três mulheres não defende um ideal de igualdade na divisão do trabalho doméstico, uma em cada cinco acha que a igualdade em matéria profissional não é desejável e a grande maioria (82 por cento) não procura dividir igualmente as tarefas domésticas com o cônjuge. O resultado da investigação indica ainda que um terço das mulheres encara o divórcio como "muito difícil".
Apesar das mulheres que ainda assumem posições conservadoras em relação ao casamento e aos papéis do homem e da mulher na relação, o estudo revela que existe um "movimento tendencial da instituição [casamento] para o companheirismo".
Sobretudo a partir de meados dos anos 80, verificou-se uma tendência para uma "maior privatização dos comportamentos familiares", em que as mulheres dão cada vez menos importância "a factores de regulação externa", como a pressão das normas instituídas para o casamento.
Assim, existe um fortalecimento do modelo "companheirista", comprovado pelo aumento da aceitação fácil do divórcio ou pelo reforço da adesão à igualdade conjugal, em matéria de divisão do trabalho doméstico e profissional.
O estudo salienta também a diminuição do fosso entre a igualdade que se deseja e a que se procura concretizar, já que ao longo do tempo tem vindo a aumentar o número de mulheres que tenta coincidir "o desejável e o possível".
Aliás, para os investigadores, a questão da igualdade é determinante no desgaste de alguns aspectos mais institucionais do casamento. "A incorporação da igualdade como dever-ser pode assim ter-se constituído como um contributo importante para a modernização da vida familiar na sociedade portuguesa", indica o estudo.
A investigação procurou também saber se actualmente existe um modelo de orientação dominante dos casais. No entanto, as opiniões das mulheres inquiridas vão desde a preferência pela instituição forte (a representar os discursos mais tradicionais), num extremo, ao companheirismo, no extremo oposto, passando pelo perfil intermédio, que conjuga aspectos tradicionais com companheiristas.
Estes resultados demonstraram, por isso, que não existe um modelo dominante mas "uma pluralidade de valores" a atravessar a sociedade portuguesa.
O principal instrumento de pesquisa foi um inquérito por questionário aplicado em 1999 pelo Instituto Nacional de Estatística a uma população alvo de mulheres portuguesas entre os 25 e os 49 anos a viver actualmente na conjugalidade.
Neste estudo, que se encontra em fase final de preparação de livro, existem três amostras representativas: a do continente (1776 mulheres), a da Área Metropolitana de Lisboa (817 mulheres) e a da Região Autónoma dos Açores (767 mulheres). Celebra-se hoje o Dia Internacional da Mulher.

