Livro mostra que é possível aprender a ser pai ou mãe

27.06.2006 - 09:45 Por Adelino Gomes, Mariana Oliveira (PÚBLICO)
Jogaram à macaca, à cordinha e à cabra cega. Brincaram com marionetas. Imaginaram-se velhinhos numa fingida viagem ao futuro. Encarnaram actores e actrizes. Pode parecer estranho, mas os participantes destas actividades já ultrapassaram todos os trinta anos. São pais. E os exemplos enumerados foram experiências que destacaram. Viveram-nas no âmbito do Pais XXI, um dos poucos projectos de educação parental do país. O trabalho ganhou agora a forma de livro e é hoje lançado às 21h30, na Esplanada Orfeu, em Santa Maria da Feira.
Hugo Cruz e Inês Pinho, os psicólogos responsáveis pelo projecto, escreveram Pais - uma experiência. Os prefácios são de Daniel Sampaio, fundador da Sociedade Portuguesa de Terapia Familiar, e de Maria Emília Costa, professora catedrática da Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto. Daniel Sampaio não hesita em recomendar o livro "a todos os pais e a todos os técnicos que se dedicam à intervenção junto das famílias". Afinal, a educação parental é uma das maiores reivindicações das Comissões de Protecção de Crianças e Jovens, um instrumento das medidas de protecção que tarda em chegar.
"Ao fomentar a criança que há em nós estamos, pois, a promover a espontaneidade, a liberdade, a informalidade, o humor, tudo ingredientes fundamentais na educação dos filhos", explicam os autores do livro. O objectivo do projecto, que começou em Junho de 2003 e ainda funciona, é promover o diálogo, a reflexão e a partilha de experiências que reforcem e estimulem o papel dos pais. "Não era sua finalidade dotar os pais de qualquer curso habilitador e profissionalizante. A paternidade e a maternidade não se ensinam, aprendem-se", defendem Hugo Cruz e Inês Pinho.
Procuraram, por isso, valorizar os saberes dos pais e promover jogos, actividades de exploração sensorial e corporal e dramatizações. "O caminho que percorremos é motor e motivo de análise, discussão, partilha e fonte significativa de aprendizagem e valorização", acreditam os autores.
Dispensaram as novelas e o futebol
As opiniões dos pais comprovam o sucesso da estratégia. "Descobri que, a qualquer altura da nossa vida, e principalmente quando temos os filhos, é muito importante brincar com eles", testemunha uma mãe de duas crianças. Para muitos, o Clube de Pais é uma forma de conversar, de desabafar, de libertar o stress. A prová-lo está o facto de muitos terem dispensado as novelas, o futebol e até a bebida.
"Há sempre aquela preocupação minha de estar a ser observado, de estar a cometer gaffes, e aqui não existe nada disso. A gente consegue sentir-se à vontade mesmo sem precisar de uma gota de álcool", conta um pai de três filhos menores.
Quase todos apontam melhorias no relacionamento com os filhos. A maioria de comunicação. "Aprendi a saber ouvi-los para depois [saber] responder, saber o que vou responder com serenidade e calma. Anteriormente, exaltava-me e respondia à toa", conta uma mãe. Alguns aprenderam a desligar a televisão. "Nós conversamos muito mais do que antes de vir para aqui, por exemplo, à mesa", conta um pai de 43 anos, adiantando que tinha o hábito de ter a televisão ligada às refeições. "Gradualmente, vou aprendendo a ser mais tolerante", admite outro pai.
"Os testemunhos dos participantes são elucidativos da importância deste tipo de acções, bem como do prazer retirado em diversas actividades. Reflectir sobre si próprio, promover o autoconhecimento, reconstruir modelos de si próprio, do outro e do mundo que funcionam como alicerces das nossas relações e consequentemente interferem no exercício da parentalidade são processos psicológicos que podem ser promovidos através do jogo, do corpo, da representação de papéis... e esta intervenção aqui apresentada é a sua demonstração", sublinha Maria Emília Costa, no seu prefácio.

