Líder iraniano acusa Papa de envolvimento numa cruzada contra o Islão

18.09.2006 - 17:20 Por AFP, PUBLICO.PT
O Guia Supremo da Revolução Islâmica iraniana, o "ayatollah" Ali Khamenei, fustigou hoje as recentes declarações de Bento XVI sobre fé muçulmana, argumentando que o discurso proferido pelo Papa na Alemanha é "o último elo" da cruzada lançada pela América contra o Islão.
Um dia depois de o Sumo Pontífice ter garantido que o texto medieval que citou durante uma conferência na Alemanha não representava a sua opinião pessoal, garantindo que nunca pretendeu ofender o Islão, o líder iraniano criticou duramente a atitude de Bento XVI.
"As caricaturas insultuosas [contra o profeta Maomé divulgadas na imprensa europeia], as declarações de certos políticos contra o Islão fazem parte de uma conspiração para uma cruzada e as declarações do Papa são o último elo desta cruzada contra o Islão iniciada pela América de Bush", afirmou o "ayatollah", numa declaração transmitida pela televisão.
O “ayatollah” sublinha que esta conspiração começou com “a invasão do Iraque pela América, que tenta criar crises entre as religiões para alcançar os seus objectivos satânicos”.
Por isso, o líder supremo iraniano defende que os protestos contra as declarações do Papa devem visar o “Grande Satã”, o termo usado pelos dirigentes conservadores iranianos para se referirem aos EUA. “Todo o mundo deve considerar o Grande Satã responsável nesta questão. Os protestos devem visar aqueles que retiram benefícios das declarações injustas do Papa”, afirmou.
A polémica estalou na semana passada, na sequência de uma conferência sobre fé e razão na Universidade de Regensburg, durante a qual Bento XVI citou um texto medieval que evoca de forma crítica a "jihad" (guerra santa). O documento transcreve um diálogo entre o Imperador Bizantino, Manuel II o Paleólogo, e um erudito persa muçulmano, no qual o primeiro argumenta: “Mostra-me o que Maomé trouxe de novo, e encontrarás só coisas más e desumanas, tal como a ordem para difundir pela espada a fé que ele pregava”.
Para Khamenei, “tais afirmações feitas por uma alta figura do cristianismo são muito lamentáveis e surpreendentes” e contribuem para a criação de “crises entre religiões e empurram o mundo para o confronto entre religiões”.
Ontem, confrontado com onda de protestos no mundo árabe provocada pela divulgação deste extracto, Bento XVI garantiu que aquela citação não representava a sua opinião pessoal e “lamentou profundamente” as reacções que o seu discurso gerou.
As palavras do Sumo Pontífice foram bem acolhidas por líderes muçulmanos moderados, mas várias organizações, como a influente Irmandade Muçulmana egípcia, exigiram um pedido de desculpas mais claro.
Posição idêntica foi assumida esta manhã pelo Governo iraniano, para quem as explicações do Papa foram “necessárias mas insuficientes”. “Ele deve dizer mais claramente que errou e corrigir-se”, afirmou Gholam-Hossein Elham, porta-voz do Executivo.
Aproveitando a polémica para atacar os inimigos de sempre, o responsável iraniano acusou os “sionistas de procurarem explorar as questões religiosas”, criando tensões entre cristãos e muçulmanos.

