Adepto do uso do latim mais frequente, o Papa Bento XVI já utilizou várias vezes a língua oficial da Igreja durante estes dias da sua viagem a Portugal. As duas missas de multidão até agora celebradas – dia 11 à tarde, em Lisboa, e esta manhã, em Fátima, foram dois desses momentos. A chamada “oração eucarística” – o momento da missa em que o celebrante consagra o pão e o vinho – foi rezada em latim.
“Por vezes já tenho que pensar duas vezes para perceber em que momento se está”, dizia ao PÚBLICO um padre que assistia ontem, em Fátima, à celebração da missa, no momento em que se rezava a oração eucarística. “Já há três gerações de padres que sabem pouco latim e as outras pessoas não percebem nada do que se está a dizer, não participando da mesma maneira”, acrescentou.
Noutros tempos, em que o latim era mais usado, fazia sentido, numa missa internacional, utilizar essa língua, acrescentava. E sugeria: era preferível utilizar diferentes línguas para diferentes momentos.
Nem só de latim se fez a recuperação de ritos e formas antigos. No altar do santuário, bem no centro, um, crucifixo, ladeado de quatro candelabros. Antes da reforma litúrgica do Concílio Vaticano II [1962-65], era exactamente assim que o crucifixo era colocado. No rito tridentino de celebração da missa, que vigorou até ao fim da década de 1960, o padre celebrava a missa voltado de costas para a assembleia, perante um altar onde estava colocado um crucifixo no centro e vários candelabros nos lados.
Depois da reforma, o crucifixo passou a ser normalmente colocado de lado ou por trás do altar. Em Abril, em Roma, um observador bem colocado comentou em Roma ao PÚBLICO que se voltaram a ver, nas celebrações papais em Roma, “rendilhados e formalismos” que tinham desaparecido.
Ontem, na missa de Fátima, o crucifixo colocado diante do Papa, além de fazer recuar no tempo, tinha outra consequência: quem estava mais longe do altar, via o rosto do Papa, nos ecrãs gigantes, tapado pela cruz.


