É a primeira confirmação pública de que algo de errado se passou no Hospital de Santa Maria, em Lisboa. Ontem, numa nota à imprensa, o Infarmed revelou que "identificou não conformidades, algumas delas consideradas críticas", durante a inspecção que realizou naquele estabelecimento depois de seis doentes terem cegado na sequência de um tratamento nos Serviços de Oftalmologia, realizado no passado dia 17 de Julho.
O Infarmed não revela para já quais as "não conformidades" detectadas, uma vez que esta divulgação "pode pôr em causa" a investigação do caso que está a ser conduzida pelo Ministério Público (MP), esclareceu o assessor de imprensa da Autoridade Nacional do Medicamento, Pedro Faleiro.
O relatório da inspecção foi já remetido ao MP, à semelhança do que aconteceu com as conclusões da primeira averiguação feita pelo Infarmed e que teve como alvo o produto alegadamente injectado aos doentes, o Avastin.
Após ter garantido a "qualidade" do lote, o Infarmed avançou com uma segunda inspecção a "todo o circuito de preparação e dispensa de medicamentos", esclareceu Faleiro. Para a bastonária da Ordem dos Farmacêuticos, Elisabete Faria, as anomalias detectadas nesta inspecção terão acontecido após o medicamento ter saído da farmácia hospitalar.
"Tudo conforme"
A Ordem divulgou também ontem o relatório da inspecção que fez na véspera à farmácia do Hospital de Santa Maria, onde se conclui "não se ter verificado qualquer incorrecção por parte dos profissionais farmacêuticos nem qualquer alteração aos procedimentos estabelecidos".
Em declarações ao PÚBLICO, a bastonária esclareceu que não conhece o relatório do Infarmed, mas recordou que no circuito investigado por este serviço existe uma parte que não é da responsabilidade dos farmacêuticos e que, por isso, os relatórios das inspecções poderão não ser contraditórios.
"Do que nós observámos na farmácia hospitalar, tanto no que respeita à prática profissional, como aos passos realizados na manipulação e preservação do medicamento, está tudo conforme. Mas quando o medicamento sai fora da farmácia, o que se passa já não é da nossa responsabilidade", disse.
Conforme o PÚBLICO noticiou esta semana, a Polícia Judiciária suspeita que este caso poderá ter ocorrido devido a negligência hospitalar. Esta suspeita baseia-se em elementos cedidos pelo hospital mas também pela Inspecção-Geral das Actividades em Saúde.
Na próxima semana serão divulgados resultados de uma outra inspecção feita na sequência deste caso, desta vez pela Entidade Reguladora da Saúde, confirmou o seu responsável, Álvaro Almeida, que se escusou a adiantar conclusões.
Esta inspecção teve como objectivo verificar se os procedimentos respeitam "todos os requisitos de segurança e qualidade dos serviços". Se forem detectadas falhas nos procedimentos, não só terão que ser corrigidas, como se procederá também à análise de outras unidades hospitalares de modo a verificar-se se existem problemas idênticos, acrescentou Álvaro Almeida.
O Infarmed deu dez dias a Santa Maria para apresentar "um plano de medidas correctivas". No final deste prazo, haverá uma nova inspecção. Ontem, nem a administração nem o gabinete de imprensa do hospital responderam aos telefonemas do PÚBLICO.


