Os alunos do programa Emili@, que o município de Santa Maria da Feira promove há um ano, têm em média 78 anos. Querem aprender a ler e a escrever, mas também a lidar com as novas tecnologias.
O programa destina-se à formação da população sénior e decorre em 10 pólos espalhados pelo concelho, envolve um total de 120 participantes e inclui aulas de Tecnologias de Informação e Comunicação, que iniciam aqueles que são alfabetizados no uso de computadores e recursos multimédia, e ainda uma Oficina de Talentos, que os ocupa com actividades lúdicas.
Cristina Barbosa, coordenadora do programa E-mili@, reconhece que são as aulas de alfabetização, contudo, “as que mais efeito têm na auto-estima” das 25 pessoas que as frequentam -- uns em situação de pré-reforma, com idades próximas dos 55 anos, e outros já a chegarem aos 90 e a viverem em lares.
Nenhum desses 25 alunos sabe ler, alguns porque nunca frequentaram a escola, outros porque aprenderam de forma muito fugaz e esqueceram as noções mais básicas da escrita.
Amélia Pinto tem 89 anos e quando devia ter frequentado a escola andou a guardar a ovelha da família. “Naquele tempo ninguém pensava em aulas e nessas coisas”, garante. “Mas arrependi-me tanto, tanto...!”.
Ainda jovem, já sentia que saber ler e escrever lhe fazia falta, principalmente quando tinha de partilhar a intimidade com uma estranha: “Para mandar as minhas cartas de namoro tinha de pedir a uma senhora para as escrever e claro que lhe tinha de contar tudo, para ela o pôr no papel”.
“Há aqui pessoas que andaram na escola um ano ou dois, ou que até fizeram a quarta classe”, revela Cristina Barbosa, “mas depois não tiveram hipótese de desenvolver esse conhecimento ao longo da vida, nem conseguiram sedimentar essas capacidades”.
Os conteúdos das aulas têm, portanto, de ser adaptados à idade e à experiência de vida dos alunos. “Tendo em conta que estamos a promover educativamente estas pessoas, nas aulas debatem-se temas actuais que elas possam depois discutir com os amigos e com a família”, explica a coordenadora do programa Emili@.
São esses temas que se exploram também na parte prática da aula, relacionada com tarefas como o desenho das letras. Cristina Barbosa conta, aliás, “que algumas pessoas não sabem sequer usar uma caneta e precisam de exercícios de coordenação motora para realizar esse gesto”.
Em todo esse processo, “a primeira grande conquista” é assinar o nome, mas Assunção Fonseca, a especialista em Ensino para Adultos que dirige as aulas de alfabetização do programa E-mili@, realça que, “às vezes, demora-se mais do que um ano a consegui-lo”.
“A aprendizagem pode ser dificultada por causa da artrite, da doença de Alzheimer ou de um AVC [Acidente Cardiovascular]”, explica a professora. “Até o quadro da sala tem de ser posto de parte durante as aulas, porque visualizar o que escrevem lá é um problema para a maioria destas pessoas e faz-lhes muita confusão”.
Assunção Fonseca considera, apesar disso, que as dificuldades que os seniores enfrentam no combate à iliteracia ajudam a reforçar o valor desse momento: “Estas pessoas eram analfabetas puras e quando finalmente conseguem escrever o seu próprio nome, sozinhas, isso dá-lhes uma satisfação enorme, que é diferente das outras coisas boas que já tiveram na vida”.
Isso nota-se na boa disposição de Maria Adelaide, 85 anos: “Sei ler, sei escrever e sei a tabuada de cor”, declara, com orgulho. “Agradeço às alminhas dos meus pais que nos puseram a todos na escola, mas vim para cá reciclar os meus conhecimentos, aprender coisas novas e conviver com as pessoas”, acrescenta.
“Acho que nunca é tarde de mais para aprender o que quer que seja. Se as pessoas da nossa própria família não vêem isso e nos dizem que já não vale a pena, não estão a ser boas para nós”, defende, em jeito de conselho.
Nove por cento dos portugueses não sabem ler nem escrever, de acordo com dados do Instituto Nacional de Estatística referentes a 2001.


