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Herman José: Que hei-de eu fazer? Não lhe resisto

29.06.2010 - 10:38

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O mundo conheceu há anos a Florence Foster Jenkins, filha de pais ricos, conhecida na sociedade nova-iorquina como a “rainha do grito”. Uma desafinada crónica que pensava cantar Mozart, Verdi e Strauss qual Kiri Te Kanawa. Nas suas tardes concorridas no Ritz, não faltavam fãs como o Cole Porter ou o meu ídolo Noël Coward. E não iam lá para achincalhar a figura, antes para apanhar boleia daquele obsessivo optimismo, daquela saudável loucura, daquela espécie de autismo artístico contagiante.

Foi isso que a Natália de Andrade provocou em mim quando a conheci. Ainda hoje me divertem imenso as suas gravações. Aquela afinação tão peculiar, aquele sorriso nos lábios que transforma a “área de Manon” em qualquer coisa de muito trendy e kitsch, tem o mesmo efeito na minha alma que algumas músicas dos Pink Martini numa tarde de Verão, ou alguns dos irónicos surrealismos do Warhol em passeios no MoMa.

Será um pecadilho este fascínio, será por vezes uma crueldade, mas que hei-de eu fazer ? Não lhe resisto. À hora a que escrevo este texto, estou a pouco de actuar num casino do Algarve. Como habitualmente, uma das minhas piéces de résistence no arranque do espectáculo será a minha imitação quase perfeita da sua Canção Verde.

Onde quer que esteja, a Natália ao ouvir-me deve estar a sorrir de orgulho e a dizer para os seus detractores: “Eu não vos disse que fui uma diva que inspirou gerações de artistas?”

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