Grupo que extorquia e raptava criminosos na Margem Sul do Tejo incluía três polícias

07.07.2007 - 12:28 Por José Bento Amaro
Os dois agentes da PSP que a Polícia Judiciária (PJ) deteve na quarta-feira, em Setúbal, pelos crimes de extorsão e sequestro, eram apenas um terço de uma associação criminosa que, nos últimos anos, na Margem Sul do Tejo, seria responsável pelo rapto, agressões, roubo qualificado e violação de domicílio de diversas pessoas ligadas à noite e, até, ao crime. Três dos restantes suspeitos estão presos há cerca de dois meses, enquanto o último, um militar da GNR, morreu no Verão passado.
Após mais de um ano e meio de investigações, os inspectores da Direcção Central de Combate ao Banditismo (DCCB) da PJ acreditam ter desmantelado por completo uma rede que, de acordo com os responsáveis contactados pelo PÚBLICO, agiam de modo organizado, ao ponto de planearem com minúcia os crimes que agora lhes são imputados.
Ao grupo terão sido apreendidas 25 armas, 12 das quais de uso proibido, e mais de 2700 munições de calibres diversos, um crachá da PSP, um cartão de livre trânsito falsificado, gorros, luvas, algemas e ainda matrículas falsas e de rápida colocação.
Vítimas vigiadas
Os suspeitos, diz a PJ, chegavam a passar semanas a vigiar as vítimas, nos seus locais de trabalho ou nas residências. Quando já possuíam dados suficientes, e sabendo que a maior parte das pessoas que interpelavam poderiam vir a ter problemas com a justiça, apresentavam-se como se todos fossem polícias. Era desse modo, muitas vezes de armas em punho, que exigiam avultadas quantias em dinheiro e, em alguns casos, a entrega de quantidades de droga.
Situações houve em que alguns familiares das vítimas chegaram a ser pressionados e ameaçados, dizem ainda os investigadores da DCCB. Ainda, fosse porque temiam represálias, fosse porque não queriam levantar suspeitas junto da polícia relativamente ao seu modo de vida, quase nunca apresentavam queixa.
Quando, no Verão do ano passado, a PJ foi alertada para a existência da eventual organização criminosa, e depois de inúmeras operações de vigilância e tentativas de recolha de depoimentos (algumas destas acções foram efectuadas com o conhecimento dos comandos da PSP, uma vez que dois dos seus efectivos estavam, supostamente, implicados), deparou-se com a existência de um militar da GNR que seria igualmente responsável por alguns dos crimes. Este homem acabaria por se suicidar.
Actualmente, os cinco suspeitos que terão de responder em tribunal, com idades compreendidas entre os 30 e os 50 anos, estão todos em prisão preventiva.
Outro grupo, de menor dimensão, era também supostamente liderado por um ex-agente da PSP. Este grupo, para além de extorquir dinheiro a criminosos, dominava grande parte dos mais conhecidos estabelecimentos nocturnos das regiões Sul e Centro.
Alguns dos seus integrantes faziam cobranças difíceis, outros agrediam terceiros a troco de quantias e outros, por sua vez, eram os responsáveis pelo controlo de dezenas de mulheres estrangeiras, muitas delas em situação ilegal, que trabalhavam nos bares. Pelo meio terão ficado alguns homicídios, incluindo o de um homem suspeito de também integrar a rede.
O golpe mais audacioso terá sido, no entanto, a simulação de um roubo de diamantes avaliados em cerca de dois milhões de euros.

