Gripe A revelou e agravou doença cardíaca de Adriano 
30.10.2009 - 07:59 Por Alexandra Campos, :, Renato Duarte
A morte súbita do menino de dez anos infectado com o vírus H1N1 - e com uma doença cardíaca que só a autópsia revelou - não podia ter sido evitada. "Neste caso não há nada que pudesse ter sido modificado", garante a infecciologista Maria João Brito, da direcção da Sociedade Portuguesa de Pediatria. Adriano morreu, na quarta-feira à tarde, no Hospital de D. Estefânia, em Lisboa. Ontem, um homem de 50 anos que sofria de doença crónica também não resistiu à infecção pelo H1N1 no Hospital de Ponta Delgada, Açores, tornando-se a quinta vítima mortal da gripe A em Portugal.
Em Lisboa, foi uma conjugação de factores excepcional que conduziu à morte inesperada e antecipada da criança: os dados preliminares da autópsia apontam para uma cardiomiopatia congénita, que provoca alterações do músculo cardíaco e normalmente não apresenta sintomas. Um problema com que Adriano poderia viver durante anos, sem diagnóstico, e que foi agravado pela infecção provocada pelo vírus da gripe A. "Dificilmente se repetirá um caso assim", destacou o director clínico do hospital, Gonçalo Ferreira.
A cardiomiopatia "pode provocar morte súbita, como tem acontecido, nomeadamente, com atletas de alta competição", explicou a ministra da Saúde, Ana Jorge, em conferência de imprensa. Ana Jorge rejeitou a crítica de que a criança não teria sido tratada devidamente - foi assistida pela primeira vez no Hospital de S. Francisco Xavier na segunda-feira e enviada então para casa sob vigilância, por apresentar apenas sintomas leves de gripe. "Não tinha sinais de gravidade", justificou, frisando que foi correctamente medicada.
Adriano recorreu primeiro ao Hospital de S. Francisco Xavier na segunda-feira à tarde (e não no dia seguinte, como o PÚBLICO ontem escreveu) e foi então mandado para casa sob vigilância. Nessa altura, apresentava apenas sintomas de gripe "com dois dias de evolução e sem outros factores de risco", justificou ontem o hospital, em nota. Acabaria por ir de novo à urgência deste hospital na noite de terça-feira e foi então encaminhado para o D. Estefânia, que assegura uma parte das urgências pediátricas nocturnas em Lisboa. Um percurso criticado pelos familiares da criança, que admitem processar este hospital.
Reagindo às críticas, o presidente da Sociedade Portuguesa de Pediatria defendeu que o Hospital de S. Francisco Xavier obedeceu aos "critérios de atendimento e despistagem do vírus H1N1" neste caso. Luís Januário lembrou, em comunicado, que orientação da Direcção-Geral da Saúde (DGS) inclui a "vigilância no domicílio", quando "o doente apresenta uma situação clínica que não é conclusiva".
Escola não fecha
Na manhã de ontem, quando ainda não era conhecida a verdadeira causa da morte, a papelaria dos pais de Adriano, localizada mesmo em frente à EB 2,3 Paula Vicente, no Restelo, que o rapaz frequentava, estava aberta. Na montra lia-se um aviso pedindo para que não fossem incomodados com perguntas de jornalistas. Ao longo de toda a manhã e início da tarde, o director da escola reuniu com pais, professores e funcionários para comunicar a forma como a escola irá funcionar daqui para a frente. A resposta é: tal e qual como antes. A única diferença significativa será a presença de mais quatro psicólogos, para além dos dois de que a escola dispõe, que farão o acompanhamento dos alunos.
Uma das decisões aguardadas era a do possível encerramento temporário da escola, questão que não demorou a ser esclarecida. "A escola não irá encerrar. A DGS apresentou os critérios para fecho de escolas e esta não os preenche", disse Maria João Albuquerque, professora bibliotecária, à saída da reunião.
Emília Sanches multiplica-se em entrevistas aos jornais e televisões presentes. É presidente da associação de pais da escola e tem todos os seus cinco filhos infectados com o vírus H1N1 - três são alunos na Paula Vicente. "Agora estou descansada relativamente aos meus filhos porque eles já estão imunizados, mas continuo preocupada com a situação das outras crianças", diz. "O rastreio deve ser feito pelos pais, em primeiro lugar, tal como eu fiz. Existe um plano de contingência, a escola tem desinfectantes, existe uma sala de isolamento para onde as crianças vão e são registados periodicamente os seus níveis de febre. Não há motivo para que a escola seja encerrada."
Vítima nos Açores
Nos Açores, a morte, ontem, de um homem de 50 anos parece mais simples de explicar: internado desde quarta-feira com "sintomas de grave dificuldade respiratória", sofria de "doença crónica associada, o que terá motivado o agravamento do seu estado" e a sua morte, afirmou o director clínico do Hospital de Ponta Delgada, Laurindo Frias.
Residente no concelho de Ponta Delgada, na ilha de São Miguel, o homem estava há dois dias com sintomas de infecção respiratória, mas não recorreu à Linha Saúde Açores nem procurou ajuda médica. Foi à urgência devido aos problemas respiratórios.

