Gripe A: Morreu mais um feto de 34 semanas numa grávida recém-vacinada 
17.11.2009 - 19:15 Por Maria Lopes, Romana Borja-Santos
Uma grávida de 34 semanas que foi vacinada contra a gripe A na sexta-feira passada, dia 13, deu entrada no hospital CUF Descobertas na noite de ontem, segunda-feira, com o feto morto.
Há a indicação de que a mulher grávida não tem problemas crónicos de saúde, que é saudável, e o parto ainda não ocorreu, confirmou ao PÚBLICO o gabinete de comunicação do grupo José de Mello Saúde, proprietário do hospital.
Quando deu entrada naquela unidade, localizada no Parque das Nações, em Lisboa, o feto já se encontrava sem vida e pelas 19h ainda estava no processo de parto, afirmou ainda o gabinete de comunicação que não quis adiantar a idade da grávida ou se esta era a sua primeira gravidez. “Não há mais informações disponíveis”, disse o gabinete.
Segundo caso em dois dias
Este é o segundo caso em apenas dois dias e com contornos muito idênticos. No passado domingo deu entrada no Hospital de Portalegre uma grávida também de 34 semanas que fora igualmente vacinada contra o vírus da gripe A três dias antes. A mulher recebera a vacina na quarta-feira no Centro de Saúde de Portalegre e poucas horas depois deixou de sentir os movimentos normais da criança.
Em comunicado, a direcção clínica do Hospital de Portalegre disse que o feto morreu 18 a 24 horas antes da extracção, realizada no domingo, na sequência de alterações da circulação sanguínea (anoxia aguda). O relatório preliminar da autópsia é, no entanto, inconclusivo quanto às causas que provocaram essas alterações e que apontam para mais um caso de morte fetal súbita.
Contactado a propósito deste segundo caso, o director-geral da Saúde preferiu não se pronunciar. Em relação ao caso de Portalegre, recorde-se que Francisco George tinha lembrado que no ano passado, em Portugal, registaram-se 263 mortes fetais a partir das 28 semanas. “Há quase um caso por dia o que nos leva a admitir como pouco provável que esta morte tenha tido alguma relação com a vacina”, insistiu George, na altura, para recomendar que “as grávidas devem continuar a vacinar-se”.
Uma opinião partilhada pelo presidente do colégio de especialidade de Ginecologia e Obstetrícia da Ordem dos Médicos que, em declarações ao PÚBLICO, assegurou que “o único efeito da vacina é estimular o sistema imunitário” pelo que não acarreta nenhum risco acrescido. Luís Graça insistiu também que todos os anos ocorrem 300 a 350 casos de morte fetal tardia pelo que acredita que esta morte não passa de uma “coincidência sem qualquer relação de causa-efeito” e que poderá ter tendência a aumentar visto que a cada dia são vacinadas mais grávidas. O médico insistiu também que países como a Suécia já vacinaram 2,5 milhões de pessoas sem “nenhum problema”.
Daniel Pereira da Silva, da Federação das Sociedades Portuguesas de Obstetrícia e Ginecologia, também insiste na segurança da vacinação, apesar de compreender a “preocupação e ansiedade” das grávidas perante dois casos sucessivos. “Como em qualquer tratamento é normal que se estabeleça uma relação mas isso não significa que haja de facto causalidade. O que se passa é que estamos, agora, muito mais atentos às grávidas vacinadas do que às que não foram”, disse.
Entusiasmo excessivo
Miguel Oliveira e Silva, obstetra do Hospital de Santa Maria, não duvida da segurança da vacina contra a gripe A mas levanta uma questão: “Não é por acaso que os profissionais de saúde estão a registar uma baixa adesão à campanha de vacinação”. Isto porque, para o médico, está a verificar-se um “entusiasmo excessivo com uma doença que não justifica.
Opinião semelhante tem António Vaz Carneiro, também do Hospital de Santa Maria, para quem esta nova estirpe da gripe é “uma doença relativamente benigna e que não justifica este alarmismo”. Ainda que rejeite uma relação causa-efeito entre o que aconteceu a este feto e a dose recebida há dias, o também presidente do Centro de Estudos de Medicina Baseada na Evidência defende a “vantagem da vacina é muito pequena” – por oposição a doenças como o cancro onde vale a pena correr o risco e o desconforto dos tratamentos.
Desde segunda-feira que a campanha de vacinação nacional contra a gripe A foi alargada aos doentes crónicos e a todos os profissionais de saúde que estão em contacto directo com os doentes. Em regiões com menos população, as autoridades de saúde estão já a chamar as pessoas da terceira fase – onde se incluem as crianças com menos de dois anos de idade – para garantir que as dez doses que vêm em cada frasco não são desperdiçadas.
Notícia actualizada às 22h05
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