Gripe A H1N1: investigador português diz que hipótese de erro humano é "despropositada e infeliz"

13.05.2009 - 13:30 Por Lusa
Um especialista português em patogénese viral considera "despropositada e infeliz" a hipótese avançada por um investigador australiano de que o vírus da gripe A H1N1 resultaria de um erro humano na manipulação de uma vacina.
"Não há evidência nenhuma nesse sentido", disse à Lusa Pedro Simas, do Instituto de Medicina Molecular da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, numa alusão às declarações feitas por Adrian Gibbs ao canal de televisão Bloomberg na terça-feira.
A hipótese levantada, que está ser investigada pela Organização Mundial de Saúde (OMS), é "despropositada por não ter fundamento científico" e "infeliz porque só serve para lançar suspeitas e confusão", afirmou. Embora admita tratar-se, em teoria, de um cenário possível, Pedro Simas considera que "não faz sentido" neste momento lançar mais uma "teoria conspiratória".
Sobre o anúncio de Adrian Gibbs de que iria publicar o relatório da conclusão a que chegou, Pedro Simas diz que ele "devia ter divulgado o artigo científico antes de fazer o comentário".
Os Centros para o Controlo e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC) consideram igualmente que há falta de evidências para sustentar a hipótese.
O investigador australiano foi um dos primeiros cientistas a analisar o "mapa" genético do vírus A H1N1, que foi identificado há três semanas no México, epicentro da epidemia. Segundo os últimos estudos científicos, publicados esta semana no New England Journal of Medicine e na revista Science, não há nada na descrição do conteúdo genético do vírus A H1N1, recentemente isolado, que sugira aquela eventualidade, diz Pedro Simas.
"O problema é que se conhece a origem do vírus, o seu conteúdo genético, mas não se sabe como apareceu", afirmou.
O vírus tem oito segmentos genéticos, dos quais seis são oriundos de vírus que já circulavam em suínos no México e os outros dois que também são de origem suína, mas do continente euro-asiático, explicou. A sua análise filogenética indica que é muito idêntico ao dos porcos, ao nível de 96 a 97 por cento, tanto nos segmentos de origem americana como nos de origem euro-asiática, sendo diferente apenas ao nível de conteúdos de alguns aminoácidos, acrescentou.
Ao estudarem recentemente o conteúdo genético dos vírus A H1N1 em 49 pacientes infectados nos Estados Unidos, em 13 Estados diferentes, os cientistas constataram que era idêntico em 99 a 100 por cento. "Sabe-se portanto que é o mesmo vírus que está a circular e que tem origem no que circulava nos porcos nos continentes americano e euro-asiático, mas não se sabe como apareceu", assinalou.
Na sua perspectiva, "o progresso nesta área tem sido fantástico" e existe agora "uma oportunidade única" para a comunidade médica se preparar para a próxima época de gripe no hemisfério norte. Tudo depende da tomada da decisão política de apostar na vacina pandémica e não na vacina sazonal, já que o vírus A H1N1 será, segundo tudo indica, o vírus dominante na próxima época, considera.
Segundo o mais recente balanço da OMS, a gripe A H1N1 já infectou 5.728 pessoas em 33 países, causando a morte de 61, e, segundo o investigador português, "está em expansão numa altura em que não deveria estar, dada a estação do ano".

