Greenpeace: Texas Joe já não se mete entre uma baleia e um arpão

26.08.2008 - 08:57 Por Helena Geraldes
Duas gerações de activistas da Greenpeace estiveram por estes dias em Lisboa, última paragem de três meses de uma viagem pelo Mediterrâneo. Pete Bouquet, na organização desde 1978, acredita que hoje é mais difícil defender o ambiente do que nos anos 70. E Texas Joe, de 32 anos, passou a temer mais os opositores: "Não estou para ser um mártir".
O capitão inglês Pete Bouquet, de 59 anos, usa o cabelo grisalho curto. Em 1978 tinha-o bem mais comprido quando, numa doca em Londres, ajudou a transformar o Sir William Hardy, velho barco de pesca abandonado e em mau estado, no Rainbow Warrior, o primeiro navio da Greenpeace na Europa.
"Um dia vi nas notícias na televisão um hippie num barco velho, em Londres, a pedir profissionais para navegar num navio que iria salvar baleias no mar do Norte. Como sempre me interessei pelo ambiente e especialmente por baleias, pensei: por que não?", recorda, sentado no convés do Arctic Sunrise, navio da Greenpeace que até domingo passado esteve atracado nas docas de Alcântara, em Lisboa.
Se a organização de defesa do ambiente tivesse um álbum de fotografias, Pete apareceria nas primeiras páginas, na Primavera de 1978, preso por cordas a pintar de verde o casco do Rainbow Warrior. "Oh, essa fotografia, todos me falam dela", diz Pete a sorrir. Eram os primeiros anos dos "guerreiros do arco-íris", organização formada em 1971.
"Vieram pessoas de todos os cantos de Londres para ajudar a recuperar o barco. Lembro-me de um taxista que ajudou com a parte eléctrica. Mudámos os motores e um dia antes de o barco partir ainda estava a cravar-lhe o nome no casco, para que nunca mais saísse".
Sem saber o que fazer
A primeira viagem do Rainbow Warrior, com 24 tripulantes de dez nacionalidades, começou a 29 de Abril de 1978. No Verão, Pete, que começou a navegar aos 16 anos, como aprendiz, passou a ser o primeiro capitão permanente da Greenpeace. "O nosso principal objectivo era impedir a caça comercial à baleia-comum na Islândia". A táctica de pôr um bote pneumático à frente dos navios de caça, entre a baleia e o arpão, manteve-se na Greenpeace até que Texas Joe Constantine caiu às águas geladas da Antárctida, em Janeiro de 2006.
Durante duas semanas, os navios da Greenpeace Esperanza e Arctic Sunrise perseguiram a frota japonesa que caçava baleias-anãs numa área do santuário nas águas da Antárctida. Uma tarde "pusemos o pneumático em frente ao navio japonês (Yushin Maru n.º 2), entre a baleia e o arpão. Sabíamos que não iriam atacar connosco ali. Mas de repente dispararam por cima das nossas cabeças e atingiram a baleia, que teve morte imediata", conta Texas, canadiano, activista desde 1994. Foi a primeira vez na história da Greenpeace que alguém disparou o arpão com os activistas pelo meio.
A corda presa ao arpão enleou-se no pneumático, onde estavam três activistas. "Ficámos sentados no bote, sem saber o que fazer. Foi um choque. Não sabíamos se havíamos de cortar a corda. Contactámos o Arctic Sunrise, que se encontrava relativamente longe, para pedir instruções. Foi então que o Yushin Maru começou a puxar a corda". Texas caiu à água gelada e ensanguentada e aí ficou dez minutos, com o fato que o protegia rasgado, antes de conseguir ser resgatado.
Segundo o líder da expedição, Shane Rattenbury, naquele momento os baleeiros japoneses subiram o nível de confronto e a Greenpeace teve de repensar a sua estratégia.
"Até aí confiava neles, no respeito que tinham pelas nossas vidas. Apenas arriscava colocar-me entre a baleia e o arpão porque sabia que não iriam disparar se estivessem seres humanos ao seu alcance. Hoje já não é assim. Não estou aqui para ser um mártir", conta Texas, de corpo franzino e estatura média, com os olhos azuis claros muito sérios.
Texas diz que se trata de uma medição de forças. "Sempre que um lado muda de táctica, o outro responde com coisas novas. Quando eles arranjaram canhões de água para nos atingir, equipámos os nossos botes com escudos. Agora adoptámos jactos de água nos nossos pneumáticos para dificultar a visão aos atiradores. Vamos ver como vão responder."

