O ministro do Interior francês, Nicolas Sarkozy, advertiu hoje, na cerimónia de abertura da Conferência Euro-África sobre Migrações e Desenvolvimento, que "o fracasso de África hoje será o desastre da Europa amanhã".
"A gestão do fluxo migratório entre África e a Europa é a chave para a estabilidade do mundo", afirmou Sarkozy, que participa na cimeira juntamente com os ministros dos Negócios Estrangeiros e da Cooperação franceses.
"Será imoral e irrealizável a imigração ilegal zero", disse. O ministro francês alertou, contudo, que "a abertura geral das fronteiras da Europa provocaria uma desestabilização maior do continente e o risco de acesso ao poder de partidos extremistas e xenófobos". E África "será a primeira vítima do aumento de partidos xenófobos na Europa", sublinhou Sarkozy.
O governante francês criticou ainda o tráfico de pessoas, salientando que é altura de a Europa e o continente africano unirem esforços para erradicar aquele "tráfico odioso, versão contemporânea da escravatura".
Antes de Sarkozy, o ministro dos Negócios Estrangeiros de Espanha, país que organiza a conferência em conjunto com Marrocos, defendeu a aplicação de "um modelo equilibrado no interesse de todos".
Miguel Moratinos referiu concretamente o interesse da Europa em "não se deixar submergir por uma imigração descontrolada" e a importância para África de "não permitir a fuga das suas elites", defendendo também um combate "co-responsável" contra os grupos mafiosos que fomentam a imigração clandestina.
No seu discurso, Morantinos anunciou também um contributo extraordinário espanhol de 20 milhões de euros de fundos para desenvolvimento e microcrédito. Segundo o chefe da diplomacia espanhola, o dinheiro será entregue à Associação para as Infra-estruturas União Europeia/África, através da criação de um fundo para projectos regionais centrados nos transportes, comunicações, energia e água.
Por seu turno, a União Europeia (UE) através da comissária para as Relações Exteriores, Benita Ferrero-Waldner, anunciou um apoio de 2,45 milhões de euros à Mauritânia, para ajudar a conter a imigração ilegal para as ilhas Canárias. O dinheiro tem como principal objectivo ajudar a Mauritânia a gerir as suas fronteiras marítimas e terrestres e a devolver aos países de origem os imigrantes ilegais.
Na conferência participam representações de 57 países europeus e africanos cujo objectivo é adoptar um plano de acção contra a imigração clandestina.
Trinta países europeus e 27 africanos participam na reunião de Rabat, entre países de origem, trânsito e destino dos fluxos migratórios. Além da UE, também participam na conferência organizações internacionais como a ONU e a União Africana.
A delegação portuguesa é liderada pelo ministro de Estado e da Administração Interna, António Costa, incluindo o secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros e da Cooperação, João Gomes Cravinho.
O grande ausente deste encontro é a Argélia, que mantém relações tensas com Marrocos devido à questão do Sara Ocidental, antigo território espanhol anexado pelas autoridades marroquinas, mas que reclama a independência.
"A nossa convicção é que as políticas que se centram sobre iniciativas de alcance limitado, como o controlo das rotas migratórias, a regionalização do direito de asilo ou a utilização de recursos financeiros transferidos para os imigrantes, não se dirigem às causas profundas dos movimentos migratórios", afirmou.
"A Argélia é um país de origem, trânsito e destino de imigrantes e está disposta a tratar o contexto da imigração ilegal num marco global, integrado, equilibrado e coerente", disse o ministro argelino.
Entre os países a norte do Mediterrâneo, Espanha e Itália são os mais afectados pela imigração ilegal devido ao acesso relativamente fácil, quer pelo estreito de Gibraltar quer através da Sicília.


