Força Aérea Portuguesa cobra por socorrer pescadores que adoecem no alto-mar

09.11.2007 - 10:08 Por Ângelo Teixeira Marques
A Força Aérea Portuguesa (FAP) mantém um processo nos tribunais para reclamar a um armador o pagamento de uma operação de socorro a um pescador no alto-mar. A operação, que obrigou à utilização de um helicóptero Puma durante quatro horas, foi solicitada pelo Instituto Nacional de Emergência Médica (INEM), que, apesar de possuir entre os seus meios helicópteros, não tem condições para actuar no alto-mar.
A insistência no processo judicial, que decorre no tribunal de Viana do Castelo, levou a Associação Pró-
-Maior Segurança dos Homens do Mar (APMSHM), com sede na Póvoa de Varzim, a escrever ao ministro da Defesa. Na carta, a associação protesta contra uma situação que considera "inaceitável, ilegal e revoltante".
José Festas, da associação, realça que o envio do aparelho não é feito por livre arbítrio do armador, mas por indicação de um médico do INEM com quem o mestre do barco estabelece um contacto quando se verifica a doença de um tripulante.
A partir da descrição dos sintomas feita pelo armador, "é o médico que diz que o pescador tem de ser evacuado" e, a partir daí, o INEM pede auxílio à Força Aérea, já que não possui helicópteros para fazer opções de retirada de feridos a uma determinada distância da costa. "Em terra, o INEM não é pago. Ninguém paga por uma ambulância", disse José Festas, queixando-se de uma "discriminação feita aos pescadores".
Ana Rós, do gabinete de imprensa do INEM, confirmou que o Instituto não cobra a retirada de sinistrados pelos seus meios. Daí que, nestes casos, é pedida a intervenção da Força Aérea Portuguesa.
Para se ter uma ideia do custo, o líder da APMSHM (associação criada na sequência do naufrágio da embarcação Luz do Sameiro) disse que, na semana passada, foi arquivado um caso judicial em que o Estado solicitava o pagamento de uma verba superior a 13 mil euros pelo facto de a Força Aérea, em Outubro de 2002, ter deslocado um helicóptero para resgatar um pescador a quem foi diagnosticada uma apendicite aguda.
José Festas disse que tem apelado aos armadores que, com receio de pagarem a deslocação de um helicóptero militar, não caiam na tentação de adiar a comunicação de uma doença ou tentem resolver um problema para o qual não estão vocacionados. No caso de os pescadores sofrerem danos resultantes de acidentes de trabalho, compete às seguradoras assumir o encargo da retirada das embarcações.
A polémica em torno do resgate de pescadores surgiu recentemente, na sequência do naufrágio na praia da Légua, concelho de Alcobaça, do Luz do Sameiro, que vitimou seis pessoas.
O PÚBLICO não conseguiu, em tempo útil, obter um comentário do Ministério da Defesa Nacional, tutelado por Nuno Severiano Teixeira.

