A ideia é simples, mas perigosa. Basta pegar numa pessoa infectada com o vírus H1N1 e juntá-la a um punhado de pessoas saudáveis. Agita-se a mistura e o resultado é a disseminação do vírus. As chamadas “festas da gripe”, cujos rumores de existência começaram na Internet, servem para que as pessoas contraiam o vírus agora, numa altura em que os hospitais ainda estão relativamente calmos e antes que o H1N1 dê origem a sucedâneos mais agressivos. Médicos e especialistas já vieram dizer que as “festas da gripe” são um disparate perigoso e a ministra da Saúde declarou hoje que estes encontros são “contra-indicados”.
O fenómeno parece ter começado no Reino Unido, onde os casos de infecções com gripe A têm vindo a multiplicar-se nas últimas semanas, podendo atingir os 100 mil casos até ao final de Agosto. Apesar disso, algumas pessoas correm em direcção ao vírus, em vez de fugirem dele. De acordo com a BBC, há casos registados de cidadãos que, intencionalmente, frequentam a casa de familiares e amigos infectados. Há ainda notícia de que alguns jovens britânicos têm feito circular convites através de redes sociais, convidando amigos e conhecidos para comparecerem em festas onde estarão pessoas contaminadas com o vírus.
O objectivo é simples: contrair o H1N1 antes do Inverno, altura em que o vírus poderá ter sofrido uma mutação mais perigosa para o ser humano e em que é esperado que os serviços hospitalares estejam mergulhados no caos.
Do Reino Unido a ideia parece ter atravessado o Atlântico em direcção ao Canadá e aos Estados Unidos, onde algumas notícias davam conta de festas entre crianças que já tinham contraído o vírus e crianças saudáveis, a fim de imunizar estas últimas. Tal como antigamente se juntavam crianças com varicela a meninos saudáveis - para que estes últimos apanhassem a doença e ficassem imunes - o raciocínio aqui parece ser o mesmo.
Perante estes fenómenos, os especialistas são unânimes: é uma ideia irresponsável e perigosa. O director do comité de saúde pública da British Medical Association, Richard Jarvis, indicou à BBC que este tipo de práticas é desaconselhada. “Já tenho ouvido notícias de pessoas que organizam ‘festas da gripe’. Não me parece que seja boa ideia. Eu não quereria participar em nenhuma. Por enquanto o vírus ainda é relativamente fraco, mas as pessoas adoecem e existe o risco de mortalidade”.
Apesar desta recomendação, Richard Jarvis admitiu que “é possível” que o vírus - se contraído agora - possa dar uma maior imunidade aos doentes nos próximos meses. O problema é que, se as pessoas começarem a fazer este tipo de coisas em larga escala, o vírus vai espalhar-se e as respostas do sistema de saúde vão enfraquecer e tornar-se menos eficazes. A contenção e a prevenção devem, por isso, continuar a ser seguidas com todo o rigor, defendeu o especialista.
Outro especialista inglês, Liam Donaldson, indicou igualmente à BBC que “é um raciocínio errado permitir que o vírus se espalhe livremente nas chamadas ‘festas da gripe’”. “Ainda não sabemos o suficiente acerca do poder de contaminação do vírus e, apesar de se ter mostrado relativamente fraco no Reino Unido, em algumas regiões de mundo adultos saudáveis acabaram por morrer”, disse.
Não há notícia de “festas da gripe” em Portugal
Por enquanto ainda não há notícia da existência de festas da gripe em Portugal, mas graças às informações que chegam do Reino Unido, a ministra da Saúde viu-se hoje obrigada a referir-se ao fenómeno, indicando que esta prática é “contra-indicada” e que é preciso ter “muito cuidado com isso”. "Ainda não sabemos tudo sobre esta doença, embora pareça que tem sido benigna", indicou a governante.
À semelhança da ministra, Eugénio Cordeiro, especialista em epidemiologia da Administração Regional de Saúde do Centro indicou ao PÚBLICO que não aconselha nem recomenda este tipo de práticas. “É uma irresponsabilidade uma pessoa deixar-se infectar, porque todos aqueles que pertencem a grupos de risco - obesos, grávidas, doentes crónicos e pessoas com problemas respiratórios e cardio-vasculares, entre outros - podem, por exemplo, contrair uma pneumonia com um desfecho irremediável”.


