Embora estivesse previsto, naquela tarde de 13 de Janeiro de 1975 afinal não houve fogueira, não se queimaram as revistas pornográficas nem os códigos Civil e Penal ou as leis laborais; a dona de casa não deitou para o lume o avental, nem a noiva a flor de laranjeira ou a vamp o seu biquíni - símbolos da opressão masculina sobre as mulheres. As dezenas de mulheres que acorreram à concentração do Movimento de Libertação das Mulheres (MLM), no alto do Parque Eduardo VII, acabaram por ser ofendidas por centenas de homens - a imprensa de então fala em dois mil -, apalpadas, agredidas, e algumas até despidas. Também houve uma espécie de contramanifestação, em que mulheres e homens se insurgiam contra o MLM.
Hoje, a UMAR - União de Mulheres Alternativa e Resposta volta ao local para assinalar a data, com roupas roxas, a cor do movimento feminista. "Os tempos mudaram mas ainda há um modelo masculino hegemónico que continua a oprimir as mulheres", diz Manuela Tavares, da UMAR, recordando o "acto de brutalidade machista" de há 35 anos. Mantêm-se as diferenças salariais, a penalização por causa da maternidade, a violência doméstica, o tráfico de mulheres, enumera Manuela Tavares. A melhor arma feminina para mudar este cenário, diz, é "o crescimento da consciência dos seus direitos".
Maria Teresa Horta, uma das "Três Marias" perseguidas e julgadas pelo regime, vai mais longe. "Nada do que estava ali representado há 35 anos está desactualizado: o casamento tem a mesma simbologia opressiva, a pornografia exploradora da imagem da mulher é cada vez mais corrente, ainda há violência doméstica, a sexualidade da mulher ainda é tabu, e mantêm-se as discriminações no trabalho e no acesso ao poder."
A activista lembra que "as leis mudaram muito, mas as mentalidades muito pouco. É como a pele: a epiderme tem bom aspecto mas a carne por baixo está doente." A violência que tomou conta do local naquele dia "seria quase impossível hoje publicamente, mas infelizmente repete-se todos os dias na vida de muitas mulheres", aponta Maria Teresa Horta.
"O que vamos fazer é um acto simbólico. Esperemos que apareçam algumas mulheres, mas também homens. Que desta vez estarão do nosso lado", diz, entre sorrisos, Manuela Tavares.


