Fármaco usado no Santa Maria não tem registo de reacções adversas em Portugal

23.07.2009 - 08:45 Por Mariana Oliveira, Romana Borja-Santos
Até ao início desta semana, a Autoridade Nacional do Medicamento (Infarmed) não tinha sido notificada de qualquer reacção adversa relacionada com o uso do medicamento Avastin (nome comercial), que foi injectado em seis doentes que correm o risco de ficar cegos e estão agora internados no Hospital Santa Maria, em Lisboa. Esta informação foi dada ontem ao PÚBLICO por fonte oficial do organismo público.
Ainda não se sabe o que está na origem do problema, se uma contaminação do fármaco, se um problema com a substância propriamente dita. Dos seis pacientes (quatro foram operados a um olho e dois a ambos), dois apresentam melhoras e quatro mantém-se estáveis.
O assessor de imprensa da Roche, o laboratório responsável pelo medicamento, não soube responder se a empresa teve conhecimento de algum problema com este fármaco, indicado para o tratamento de vários tipos de cancros, especialmente o do cólon e o do recto. "Mais de 500 mil pessoas já utilizaram o Avastin no tratamento do cancro", adiantou João Pereira, sem saber precisar quantos pacientes foram tratados em Portugal.
Quanto à utilização do medicamento no campo da oftalmologia, o assessor da farmacêutica afirma: "Não estando aprovado o fármaco nessa área, não é recomendado pela Roche esta utilização. Nunca fizemos estudos em contexto oftalmológico". O assessor admite, contudo, que é lícito o seu uso: "Como outros medicamentos podem ser usados fora da sua indicação se o médico o entender e houver benefício para o doente".
Nisso mesmo insiste o bastonário da Ordem dos Médicos, Pedro Nunes, que sustenta que só assim a medicina evoluiu. "Quando há, como neste caso, evidência científica a nível mundial e não existe outra terapêutica os fármacos podem ser usados mesmo fora das indicações que constam na bula", afirma Pedro Nunes. "É assim que a medicina avança". O bastonário realça que, às vezes, os laboratórios não têm interesse em promover um medicamente numa área, porque ela não é rentável face ao custos de estudos.
Carta da Roche
Ontem alguns meios de comunicação social falavam de uma carta enviada pela Roche em Fevereiro aos directores de serviços farmacêuticos e directores de serviços de oftalmologia dos hospitais portugueses. Segundo a Sábado, a missiva diria que: "A Roche não estudou nem procurou obter autorização para o uso de Avastin em contexto oftalmológico". Logo a seguir, reforçava: "A utilização de Avastin no contexto oftalmológico não foi autorizada por qualquer autoridade de saúde mundial". A carta terá sido enviada na sequência da ocorrência de efeitos adversos do Avastin em procedimentos oculares no Canadá, em Novembro de 2008.
O presidente do Colégio de Oftalmologia, Florindo Esperancinha, não conhece esta carta, mas insiste que o que está aqui em causa é uma "guerra comercial". E adianta que não é a primeira vez que cartas com este teor são enviadas. "O que aconteceu no Canadá foram pequenas inflamações oculares", garante o especialista. O bevacizumab é muito mais barato que o seu concorrente ranibizumab, mas nenhum dos dois está indicado para o tratamento de diabéticos, doença de que sofrem cinco dos pacientes internados no Santa Maria. "Não me posso envolver em guerras comerciais. Centenas de milhares de doentes beneficiam de melhorias por causa deste medicamente em todo o mundo".
O presidente do conselho de administração do Hospital de Santa Maria, Adalberto Fernandes, afirmou ontem, em conferência de imprensa, que a unidade continua a averiguar as causas do problema que originou as infecções e adiantou que o relatório final só deverá estar pronto dentro de 15 dias. "Transitadas as conclusões do inquérito, o hospital nesta, como em outras circunstâncias, não se furtará às responsabilidades que lhe possa ser imputadas", garantiu.
O director clínico do Santa Maria, Correia da Cunha, informou que por agora não têm resposta para o "esclarecimento de uma situação desagradável" e que muito lamenta. O Infarmed está a analisar amostras do mesmo lote do fármaco usado nas intervenções e a Inspecção-Geral de Actividades em Saúde a fazer um inquérito ao caso. Correia da Cunha salvaguardou que este tipo de tratamento tem sempre riscos, mas que as possíveis consequências são sempre pesadas e discutidas como os pacientes, no âmbito do "consentimento informado".

