Famílias ansiosas pela sentença cinco anos depois da tragédia de Entre-os-Rios

20.10.2006 - 08:18 Por Tânia Laranjo, PÚBLICO
Mais de cinco anos e meio depois da queda da ponte de Entre-os-Rios (59 pessoas morreram quando um autocarro e três automóveis ligeiros foram arrastados para as gélidas águas do rio Douro), os familiares das vítimas aguardam com expectativa o desfecho do processo-crime, que hoje termina em Castelo de Paiva.
"Aguardamos a sentença como o dia a seguir à tragédia", afirmou ao PÚBLICO Horácio Moreira, representante dos familiares das vítimas que se constituíram assistentes no processo, manifestando a sua expectativa em relação a um desfecho favorável. "Não imaginamos sequer outra coisa. Tem de haver responsáveis no processo e estes tiveram a sua quota-parte de responsabilidades. Têm de assumi-la", afirmou.
Horácio Moreira acredita ainda que outros responsáveis não estão sentados no banco dos réus. Os areeiros, por exemplo, que, durante anos, procederam à extracção de areias na margem do Douro, mas também os políticos que não construíram uma nova ponte. "Sabemos que essa era uma decisão estritamente política. Que devia ter sido tomada e não foi. Só foi construída uma nova ponte após a derrocada da antiga", continuou.
Na sessão de hoje, Horácio Moreira acredita que serão muitos os familiares que irão querer assistir à sentença. "Há dois tipos de pessoas. As que não ultrapassaram a tragédia, para quem a queda da ponte aconteceu ontem, e essas não estarão, com certeza, na audiência. E depois há outros, como eu, que tentámos refazer a nossa vida e que iremos assistir à decisão da juíza."
Horácio Moreira enaltece também o trabalho do Ministério Público no processo. Pela acusação que foi deduzida e por ter evitado que o caso fosse arquivado logo em fase de instrução. "Não esquecemos o empenho do dr. Pinto Hespanhol nesta investigação. Acreditamos que fez o que foi possível para que fossem encontrados culpados e também é isso que nós pretendemos. Que, na medida do possível, os erros sejam reparados e que possamos ajudar para que situações destas não se repitam".
Os advogados do processo também não arriscam prognósticos. Sónia Ferreira, que representa as vítimas, não antecipa qualquer desfecho, mas diz acreditar que será feita justiça e que haverá condenações. "Obviamente que a prova relativamente aos arguidos foi diferente. Parece-nos que haverá casos de prova mais flagrante do que outros, mas acredito em condenações. Não antecipo qualquer cenário, temos de aguardar pela decisão da juíza", afirmou ao PÚBLICO.
Do lado das defesas, a posição é de maior confiança. A maioria dos arguidos manifestou-se nas últimas semanas, acreditando que só a absolvição seria possível. Unanimemente, consideraram que não foi feita prova e que a audição dos peritos não foi conclusiva. A absolvição foi o único cenário admitido pelos advogados nas alegações finais, sempre baseados na ausência de prova que determinasse serem aqueles os responsáveis pela queda da ponte ou que aqueles arguidos tinham hipótese de a prever e evitar.
Ministério Público pediu condenações
Quanto ao Ministério Público, e a fazer fé na posição expressa nas alegações finais, o entendimento é de que os arguidos devem ser condenados. Embora tendo em conta o facto de se tratar "de pessoas de bem", com muita idade, que agiram por desleixo e que devem ver as suas penas atenuadas.
Tal posição foi expressa por Monteiro Penas, que imputou maiores responsabilidades aos arguidos Barreiros Cardoso e Aníbal Soares Ribeiro (da ex-Junta Autónoma de Estradas), seguindo-se, num "escalão intermédio", Carlos Guerreiro e Mota Freitas (ambos técnicos da empresa projectista). No último escalão da responsabilidade ficaram Baptista dos Santos e Manuel Rosa Ribeiro (ex-JAE), cuja actuação o procurador admitiu poder a vir a ser alvo de amnistia.
Ainda nas alegações, o procurador defendeu que os arguidos tiveram um comportamento desleixado face ao conhecimento que teriam sobre a insegurança das fundações da ponte, particularmente de um dos pilares. "Não actuaram de acordo com aquilo que as suas responsabilidades e competências exigiam", afirmou, sustentando que violaram as regras técnicas a observar no planeamento de modificação de construção, os pressupostos que configuram o crime pelo qual estão acusados.

