Face Oculta: Sócrates mantém que desconhecia negócios da TVI e acusa "Sol" de o insultar 
13.11.2009 - 12:20 Por Lusa, PÚBLICO
O primeiro-ministro acusou hoje o semanário "Sol" de o ter "insultado" a propósito das escutas no âmbito do processo Face Oculta e manteve o que afirmou no Parlamento sobre o seu desconhecimento face à compra da TVI . Afirmou ainda esperar que o procurador-geral da República esclareça legalidade das escutas.
José Sócrates falava aos jornalistas no Centro Cultural de Belém, em Lisboa, à entrada para uma sessão sobre os resultados do potencial tecnológico e científico.
De acordo com a edição de hoje do jornal "Sol", "as escutas do processo Face Oculta provam que o primeiro-ministro faltou deliberadamente à verdade quando disse no Parlamento que desconhecia o negócio da compra da TVI pela PT".
José Sócrates reagiu a essa notícia com palavras duras: "Isso não passa de um insulto desse jornal, que não dá uma notícia, mas faz um insulto. Mantenho tudo o que disse no Parlamento e não tenho nada a acrescentar", declarou o líder do Executivo.
Segundo Sócrates, nem ele, "nem o Governo, tinham qualquer conhecimento oficial, nem nenhuma informação prévia de nenhuma intenção empresarial da PT". "Isso é completamente inverdadeiro. Não é verdade o que diz esse jornal e classifico isso apenas como um insulto", insistiu.
Sobre o teor das suas conversas telefónicas com o ex-ministro socialista Armando Vara, arguido no processo Face Oculta, Sócrates deu a seguinte resposta: "Era só o que faltava que agora me pusesse a comentar conversas que tive com pessoas amigas ao telefone e, principalmente, as versões que um jornal diz que eu tive nessas conversas".
O primeiro-ministro afirmou esperar que o procurador-geral da República, Pinto Monteiro, esclareça, como prometeu, se é possível num Estado de Direito ser pessoalmente escutado "meses a fio", com as suas conversas privadas a serem gravadas e transcritas. José Sócrates começou por se referir à natureza do processo "Face Oculta", deixando uma mensagem de apoio às investigações em curso por parte das autoridades judiciárias.
"Com certeza que o caso Face Oculta merece ser apoiado por parte das autoridades políticas no seu desenvolvimento de investigação. Já disse o quanto me entristece esse caso pelo facto de um amigo meu [Armando Vara] estar nele envolvido, mas o meu dever é incentivar as autoridades a prosseguir no combate à corrupção. E vejo neste caso um evidente sinal de combate à corrupção, que é preciso apoiar", salientou.
"Outra coisa muito diferente - e esse é o ponto e importa não confundir as coisas - é saber se durante meses a fio eu fui escutado - porque isto está a passar todas as marcas -, se essas escutas foram legais e se é possível fazê-las num Estado de Direito. Eu tenho o maior interesse em ser esclarecido sobre isso", disse.
"Desconheço as escutas, não estou a par de nada e sei apenas o que vem nos jornais. Espero que o senhor procurador [Geral da República, Pinto Monteiro], com o esclarecimento que prometeu, possa esclarecer-nos a todos. A questão mais importante para mim é saber se, durante meses a fio, fui escutado, com as conversas a serem transcritas e gravadas, e se isso é legal e possível de ser feito num Estado de Direito", frisou o primeiro-ministro.
Já sobre o teor dos seus diálogos telefónicos com Armando Vara, o primeiro-ministro defendeu que se trataram de "conversas privadas". "Fazem parte da reserva da minha vida privada, tive essas conversas com um amigo. Estou à espera que alguém também diga se essas gravações são verdadeiras", disse.
Sócrates procurou em seguida fazer uma distinção entre as posições assumidas na qualidade de primeiro-ministro e o teor de conversas informais que tem com amigos seus.
"Uma coisa é naturalmente discutirmos, com amigos, como fiz, relativamente a notícias que são publicadas nos jornais e a conhecimentos informais; outra coisa é, como disse no Parlamento, como primeiro-ministro, o conhecimento oficial e o conhecimento prévio desse negócio [compra da TVI pela PT]. Em relação a esse negócio não tenha nada a acrescentar ou a retirar", declarou.
O “Sol” noticia hoje que pelo menos cinco certidões retiradas do processo Face Oculta envolvem José Sócrates em actividades que indiciam o crime de tráfico de influências. Segundo o semanário, nas conversas entre Armando Vara, arguido no processo, e José Sócrates, é mencionado o “dinheiro para as despesas dos cartazes e panfletos que foram distribuídos pelos socialistas nas legislativas” ou o “apoio do futebolista Luís Figo a Sócrates (...) envolvendo o Tagus Park”.
O jornal, que afirma que nas conversas Sócrates “surge sempre como alguém que está ao corrente das operações” e que é mecionado por Vara em encontros com terceiros "como estando a par do que lhes estava a dizer ou a solicitar", adianta ainda que nas conversas que estiveram sob Vara e o primeiro-ministro “falaram também sobre a necessidade de afastar mo presidente da Refer e a respectiva tutela, a então secretária de Estado dos Transportes, Ana Paula Vitorino”.
Negócio PT-Prisa terá sido falado entre Sócrates e Vara em Março
O “Sol” avança hoje que José Sócrates sabia previamente de que estavam a decorrer negociações entre a PT e o grupo espanhol Prisa para a compra da TVI. No passado dia 24 de Junho, em pleno debate quinzenal com os partidos na Assembleia da República, o primeiro-ministro foi questionado pelo CDS-PP sobre se tinha conhecimento daquele negócio. Em resposta, José Sócrates afirmou que “o Governo não dá orientações nem recebe informações da PT”.
O jornal recorda que, pouco depois, em declarações aos jornalistas, já fora do hemiciclo, o chefe de Governo voltou a insistir que se tratam de “negócios privados e o estado não se mete nesses negócios”. “Não estou sequer informado disso, nem o Estado tem conhecimento disso”, acrescentou Sócrates.
De acordo com o “Sol”, o primeiro-ministro mentiu ao garantir que não tinha qualquer informação sobre o negócio PT-Prisa. O semanário avança que em Março deste ano, em conversas entre Armando Vara e o primeiro-ministro, que constam no processo “Face Oculta”, o negócio é abordado. Esta será a primeira das nove certidões extraídas pelo Departamento de Investigação e Acção Penal (DIAP) de Aveiro, sublinha o jornal.
O “Sol” recorda que, esta semana, o procurador-geral da República (PGR), Pinto Monteiro, afirmou que soube do assunto “numa reunião, entre Maio e Junho”, com o procurador do DIAP de Aveiro, titular do inquérito, e com o procurador distrital de Coimbra. “Consultando a agenda oficial de Pinto Monteiro, o Sol constatou que essa reunião ocorreu no dia 24 de Junho, às 11h. Segundo o PGR, a primeira certidão (negócio PT/TVI) foi-lhe remetida no dia 26 de Junho, estando as conversas de Vara e Sócrates gravadas há algumas semanas”, indica o semanário.
Notícia actualizada às 13h25
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