O ‘braço direito’ de Manuel Godinho e co-arguido no processo Face Oculta Namércio Cunha manifestou-se nesta terça-feira convicto, em tribunal, de que o sucateiro de Ovar veria o ex-ministro Armando Vara como um “lobista”.
“Fui ouvindo pequenas referências a Armando Vara e fiquei com a ideia de que [Manuel Godinho] o via da mesma maneira como [o consultor] Lopes Barreira, como um lobista”, afirmou o director-geral da O2, uma das empresas de Manuel Godinho.
No final da audiência da manhã, o testemunho foi desvalorizado, perante os jornalistas, pelo advogado de Armando Vara, Tiago Rodrigues Bastos.
Namércio Cunha, referiu o causídico, “utilizou essa expressão como vulgarmente se usa para alguém que tem bons contactos, que é uma pessoa com algum relacionamento importante na sociedade portuguesa e que pode abrir portas, chamemos-lhe assim”.
Acrescentou que Armando Vara “nunca escondeu” o seu relacionamento com Manuel Godinho e “até revelou orgulho” nele.
No seu depoimento, que se prolongou por toda a manhã e que prossegue esta tarde, Namércio Cunha exteriorizou também a sua percepção de que o consultor Lopes Barreira funcionaria como um “gestor de influências” de Godinho junto da REFER, tal como Paulo Penedos o seria em relação à REN.
Numa referência ao desmantelamento de 30 carruagens da CP, que o colocou no processo como alegado autor de um crime de corrupção activa, Namércio disse que “nunca” deu qualquer contrapartida ao seu interlocutor no episódio, o quadro da empresa de comboios Ricardo Anjos, acusado por um crime de corrupção passiva.
“Reconheço que tive acesso a informação privilegiada, mas nunca a troca de qualquer promessa ou pagamento”, assegurou.
Antes do depoimento, a advogada de Namércio, Dália Martins, ditou para a ata uma declaração em que assegurava, a propósito de notícias de sentido contrário, que o seu cliente “não foi objecto de qualquer ameaça ou atitude intimidatória por parte de qualquer co-arguido, dentro da sala de audiências ou fora dela”.
Dália Martins sublinhou que, “se tal vier a suceder”, Namércio Cunha “usará todos os meios que estão na Lei e ao seu alcance para a defesa dos seus legítimos direitos enquanto arguido e cidadão”.
A marcar a sessão da manhã ficou ainda o pedido da REFER para junção de cinco documentos aos autos, quatro deles com recortes de notícias, para questionar que estivesse a ser estabelecida uma relação de “factoring” entre o BCP e Manuel Godinho.
O juíz-presidente, Raul Cordeiro, anunciou entretanto, a supressão da sessão de julgamento marcada para a próxima quinta-feira, uma vez que a juíza Liliana Carvalho, que tem enfrentado problemas de saúde, vai submeter-se nesse dia a exames médicos.
Já no dia de Carnaval, haverá sessão, “salvo algum imprevisto”, disse Raul Cordeiro, em resposta a uma questão (“a pergunta mais difícil” do dia, considerou) de um dos advogados.
O caso ‘Face Oculta’, que tem hoje a sua 20.ª sessão de julgamento, está relacionado com uma alegada rede de corrupção que teria como objectivo o favorecimento de um grupo empresarial de Ovar ligado ao ramo das sucatas nos negócios com empresas do sector empresarial do Estado e privadas.
No banco dos réus estão 36 arguidos (34 pessoas e duas empresas) que respondem por centenas de crimes de burla, branqueamento de capitais, corrupção e tráfico de influências.


