São 36 os arguidos que, a partir de hoje, se vão sentar no banco dos réus, no Tribunal de Monsanto, em Lisboa. São acusados dos crimes de discriminação racial, agressões, sequestros, posse ilegal de armas, distribuição de propaganda nazi, entre muitos outros delitos.
São a face vísivel da extrema-direita portuguesa, a face que a polícia diz ser mais violenta, mas não a única célula que motiva precauções. Investigadores e, sobretudo, poder político continuam a vigiar, por todo o país, dezenas de outros suspeitos.
Em Abril do ano passado, e depois de várias acções policiais desencadeadas por PSP e GNR, foram os investigadores da Direcção Central de Combate ao Banditismo (DCCB) da Polícia Judiciária (PJ) que desencadearam uma vasta operação a nível nacional e que resultaria na constituição da maior parte dos agora arguidos.
Foram efectuadas 60 buscas domiciliárias, na sequência das quais seriam apreendidas 15 armas de fogo - Mário Machado, crónico protagonista dos processos que envolvem a extrema-direita portuguesa, dissera na televisão, dias antes, que todos os nacionalistas possuíam armas e que as deveriam usar para defender os seus ideais -, milhares de munições de calibres diversos, explosivos, dezenas de facas e soqueiras, sprays, inúmera literatura e propaganda nazi.
"Diabo de saias"
Os investigadores encontraram ainda várias embalagens de esteróides. Presume-se que os mesmos fossem utilizados não apenas em proveito próprio, mas que também fossem comercializados, revertendo o dinheiro para o financiamento do Portuguese Hammerskin - a componente nacional que faz parte do Hammerskin Nation, organização que congrega na Europa os mais radicais grupos de extrema-direita. O incentivo à discriminação racial de que grande parte dos arguidos são indiciados poderá constituir motivo de condenação, situação que é rara em Portugal (ver caixa). Esta acusação vai a julgamento fundamentada em diversas mensagens colocadas na Internet. Terão sido difundidas fotografias de mais de duas dezenas de pessoas que criticaram a actividade dos extremistas, vindo algumas delas a ser agredidas.
O caso mais badalado foi o das supostas ameaças à juíza Cândida Vilar. A procuradora do Departamento de Investigação e Acção Penal de Lisboa, responsável pela manutenção da situação de prisão decretada a Mário Machado, foi obrigada a requerer protecção policial, depois de na Internet terem surgido mensagens dirigidas aos nacionalistas pedindo-lhes que ninguém a esquecesse. Cândida Vilar, que mais tarde haveria de impedir a saída de Machado da cadeia ao abrigo do novo Código de Processo Penal, era então apelidada, entre outras coisas, como "diabo de saias".
Medidas de segurança
A escolha do Tribunal de Monsanto para a realização deste julgamento prende-se com as medidas de segurança. Para se ter acesso à sala de audiências, presididas pela juíza Ana Teixeira e Silva, é necessário passar por um crivo policial que, para além de proceder à identificação das pessoas, estará ainda especialmente atento a eventuais tentativas de introdução de armas.
Esta preocupação com o que se vai passar à volta do julgamento de Monsanto alastra a outras áreas do país, como o Porto, onde grupos de skinheads são alvo de permanentes vigilâncias, sobretudo por parte dos Serviços de Informações e Segurança (SIS), que periodicamente têm entregue relatórios no Ministério da Administração Interna. Também a PJ tem feito um exaustivo levantamento das actividades dos suspeitos, pelo que há muitos elementos sobre a actividade dos grupos de extrema-direita nos últimos vinte anos.


