Ex-funcionário da Refer Silva Correia vai quebrar o silêncio no Face Oculta

22.02.2012 - 21:19 Por Lusa
O ex-funcionário da Refer Silva Correia, acusado de corrupção, participação económica em negócio e burla qualificada no processo “Face Oculta”, vai quebrar o silêncio a que se remeteu desde o início do julgamento.
A informação foi avançada pelo advogado António Esteves, que defende Silva Correia, no final da 26.ª sessão do julgamento que está a decorrer no tribunal de Aveiro.
Segundo o advogado, Silva Correia irá falar ao tribunal após a conclusão do depoimento de Paulo Penedos, co-arguido no processo, que deverá ser retomado a partir do próximo dia 28.
O arguido, actualmente na reforma, vai esclarecer a sua versão sobre alegadas pressões directas que terá exercido sobre o seu subordinado Alberto Aroso, que foi hoje ouvido pelo colectivo de juízes enquanto testemunha de acusação.
Este funcionário da Refer contou no tribunal que Silva Correia, que na altura exercia funções de coordenador do Eixo Douro e Minho, lhe solicitou para adulterar as quantidades de materiais constantes numa guia de remessa de 504 toneladas de carril para 100 toneladas.
“O engenheiro Silva Correia disse-me que o senhor Godinho não concordava com os valores e que a alteração tinha de ser feita, porque se tratava de uma pessoa muito influente que tinha acesso a pessoas muito importantes, mas eu recusei”, adiantou a testemunha.
O advogado António Esteves nega que esta conversa tenha existido e chama a atenção para a “incoerência” da testemunha, sustentando que “não soube explicar porque nada fez perante um facto de extrema gravidade”.
“Pelo próprio perfil de personalidade dele, não podia ficar calado. Ainda que temesse ser despedido se comunicasse para o superior hierárquico imediatamente a seguir ao meu constituinte, há outras formas de nos indignarmos e de traduzirmos em actos materiais de comunicação a nossa indignação”, adiantou o causídico.
Segundo a acusação, Silva Correia terá beneficiado as empresas do sucateiro Manuel Godinho, o principal arguido no processo, nos negócios com a Refer, designadamente adjudicando trabalhos sem autorização do conselho de administração da empresa e sem qualquer suporte contratual no valor de 1,6 milhões de euros.
Durante a sessão da tarde o colectivo de juízes ouviu ainda o ex-director da Zona Operacional de Conservação do Porto da Refer José Moutinho que disse que Manuel Godinho “aparecia em muitas coisas”, porque tinha uma “táctica muito especial”.
“Ele estava sempre disponível para tudo. Mesmo que tivesse as máquinas na sucata ele aparecia logo no local com elas”, justificou.
José Moutinho adiantou ainda que “o pessoal do senhor Godinho aparecia, às vezes, em sítios para levantar carril, que nem sequer tinha sido dado como disponível”.
“Era tudo muito estranho”, afirmou este engenheiro electrotécnico actualmente na reforma, adiantando que quando ligavam para Lisboa para esclarecer estas situações lhes respondiam que “se tinham esquecido de avisar”.
O julgamento prossegue na quinta-feira de manhã com a continuação do depoimento de José Moutinho.

