Namércio Cunha, ex-braço direito do empresário das sucatas Manuel Godinho, continuou nesta quarta-feira, pelo segundo dia consecutivo, a prestar esclarecimentos aos juízes que estão a julgar o processo Face Oculta, que decorre em Aveiro.
A sua advogada, Dália Martins, estimou ontem que o depoimento deve demorar, no mínimo, duas semanas. O que a advogada não disse, nem confirmou, é que o cliente está desde ontem com protecção policial, depois do anúncio de que iria prestar declarações ter gerado alguma movimentação entre outros arguidos.
O filho de Manuel Godinho, João Godinho, apareceu anteontem no tribunal pouco depois do anúncio e o seu pai, o empresário das sucatas, não esteve presente na sessão, mas foi a Aveiro almoçar com o filho e com os advogados. O PÚBLICO sabe que Namércio Cunha já temia algum tipo de represálias há algum tempo, já que durante o inquérito a sua advogada foi abordada por um indivíduo, que lhe deixou um aviso. O episódio foi então reportado à PJ que, apesar de ter feito uma verificação do incidente, não conseguiu identificar o autor do aviso velado.
Namércio Cunha foi uma peça importante para a investigação, tendo prestado interrogatório de arguido em Novembro de 2009, dias após a grande operação de buscas que tornou este caso conhecido, a 28 de Outubro, dia em o ex-director comercial da O2, a principal empresa do grupo de Godinho, foi constituído arguido. Mais tarde, em Agosto do ano seguinte, a sua advogada entregou um requerimento a informar o Ministério Público que o seu cliente se encontrava disponível "para prestar declarações complementares" sobre os factos que eram do conhecimento do seu cliente.
Entre Agosto e Outubro, Namércio Cunha deslocou-se pelo menos oito vezes à PJ para ser ouvido. Pouco mais de vinte dias após prestar as últimas declarações, o Ministério Público decide acusá-lo de dois crimes (associação criminosa e corrupção activa), a par de outros 35 arguidos, entre os quais o ex- ministro socialista Armando Vara e o então presidente da Redes Eléctricas Nacionais (REN) José Penedos.
Ontem, Namércio contou que as empresas do grupo de Godinho gastavam cerca de 80 mil euros por ano em presentes de Natal, um valor que diminuiu para metade em 2008. O antigo braço direito do empresário admitiu ter sido ele a instituir o sistema das listas de presentes, para "sistematizar" um processo que era uma "prática habitual" das empresas do grupo de Manuel Godinho."Com isto poupava tempo e dinheiro. Em vez de visitar lojas comprava por catálogo", afirmou o arguido. Quanto aos nomes que integravam a lista, Namércio Cunha referiu que eram fornecidos por Manuel Godinho e pelos filhos João e Paulo, por ele próprio e pelos encarregados das empresas que indicavam "pessoas que para eles eram importantes".
O arguido disse ter sido um "pau mandado", limitando-se a cumprir ordens."Fiz coisas que me mandaram fazer. Executei. Devia essa obediência em termos de chefia, mas o que me prendia na empresa eram os desafios profissionais", assumiu Namércio Cunha.
Acompanhe o julgamento com a repórter Mariana Oliveira.


