A mutabilidade e a resistência do vírus da gripe das aves constituem os principais obstáculos na luta contra uma eventual pandemia, indicam estudos publicados hoje na revista "Science".
De acordo com Derek Smith, do Departamento de Zoologia da Universidade de Cambridge, no Reino Unido, é provável que o vírus causador de uma pandemia seja diferente dos detectados até agora em aves selvagens e de capoeira e, ocasionalmente, em seres humanos.
O investigador sublinha que o vírus tem uma capacidade aparentemente infinita de mudar, atravessar barreiras de espécies e adaptar-se a novos hospedeiros. Ao adaptar-se aos seres humanos - prevê Smith -, o vírus deverá, por definição, propagar-se entre as pessoas e mostrar diferenças em relação a outras estirpes aviárias, sendo possivelmente menos patológico.
"A adaptação ao ser humano poderia resultar de uma mutação ou da combinação de mutação e adaptação a outro vírus humano", assinala.
O outro problema da gripe das aves é a resistência que o vírus poderá assumir em relação aos agentes antivirais utilizados como primeira linha de defesa contra a pandemia, advertem Roland Regoes e Sebastian Bonhoffer, do Instituto de Biologia Integral de Zurique, na Suíça.
Até agora, os dois fármacos utilizados como antivirais são os inibidores das neuraminidases Tamiflu e Relenza, que bloqueiam a libertação do vírus nas células infectadas.
Tendo em conta os consideráveis desafios ao desenvolvimento rápido de uma vacina eficaz contra a gripe das aves, os agentes antivirais desempenharão uma importante função como primeira linha de defesa no caso de uma pandemia, segundo afirmam Regoes e Bonhoffer.
Estes peritos advertem, no entanto, que o uso de fármacos em grande escala tornará necessária uma cuidadosa selecção perante a evolução de estirpes resistentes. "A transmissão dessas estirpes poderia limitar de forma substancial a eficácia dos medicamentos", afirmam.
Noutro estudo publicado pela "Science", cientistas do Departamento de Virulogia do Centro Médico Erasmus, na Holanda, e do Centro de Dinâmica de Doenças Infecciosas da Universidade da Pensilvânia, nos Estados Unidos, afirmam que na luta contra a gripe das aves será necessário compreender como e por que razão alguns agentes patogénicos adquirem a capacidade de cruzar a barreira das espécies.
Com 194 casos em seres humanos até hoje confirmados, a Organização Mundial de Saúde e os especialistas consideram inevitável o aparecimento de uma pandemia. A gripe aviária surgiu no sudeste asiático em 2003 e até agora contagiou dezenas de pessoas, a maioria das quais após contactos com aves selvagens ou de criação.


